O terroir da longevidade: como a Beronia encontra a inovação na nova Rioja
Na última década, a mudança chegou à terra do Tempranillo; ao Seu Dinheiro, o espanhol Alejandro López, um dos 100 Master Winemakers de 2026 na lista da The Drinks Business, conta como conciliar tradição e transformação

A Espanha superou, em 2024, a expectativa média de 84 anos de vida, confirmando-se entre os países mais longevos do mundo. Para observadores, é resultado de boa alimentação, mobilidade e sociabilidade. Por lá vive-se muito – e bem.
Algo parecido acontece com a produção vinícola do Rioja. A DOCa (Denominación de Origen Calificada) mais antiga da Espanha é conhecida por adotar o envelhecimento como pilar de seus rótulos – majoritariamente do Tempranillo, a variedade-símbolo local. Recai, portanto, às vinícolas dali a missão de dar sequência a uma tradição secular, justamente quando o consumo global de vinho parece mudar tão rapidamente.
Emblema deste momento, Alejandro López assumiu a direção técnica das Bodegas Beronia em 2024 – mesmo ano em que seus vinhos desembarcam no Brasil, aliás. Sua gestão sucede à de Matías Calleja, que supervisionou a produção da marca por nada menos de 42 anos.

Ao mesmo tempo, a própria Rioja revisitava seus próprios parâmetros e diretrizes de décadas produção. Em 2017, por exemplo, o Conselho Regulador da DOCa estabelece novas classificações regionais. Em seguida, os espumantes e os brancos ganham força por lá. Já em 2024, surgem os Vinos de Pueblo, que valoriza os vilarejos locais, e em 2025 Rioja autoriza a redução do teor alcoólico mínimo exigido.
Alejandro responde com naturalidade às novas práticas. De passagem por São Paulo na última semana, quando assinou a harmonização do Mi Casa, projeto da La Pastina em parceria com o chef Diego Carrillo, ele falou com exclusividade ao Seu Dinheiro. Entre detalhes dos rótulos e da identidade do Tempranillo, falou sobre o posicionamento da Beronia frente às mudanças na produção vinícola da Rioja.
Para o enólogo, listado na respeitada seleção The Master Winemaker 100 da The Drinks Business, inovar faz parte do DNA da Beronia. “Especialmente se tivermos o respaldo da denominação de origem certificando a rastreabilidade desses vinhos.”
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“Temos a linha clássica, com Crianza, Reserva e Gran Reserva, e uma linha mais moderna, com monovarietais ou focada em vinhas velhas. Além disso, há uma linha vinculada diretamente ao terroir e às parcelas."
A Rioja que transforma
Acompanhando as novas designações da DOCa, por exemplo, López cita o Vareia Viñedo Singular. Trata-se de uma produção de parcela, selecionada por destacar-se do portfólio Beronia em suas características. Envelhecido por 11 meses em barricas novas de carvalho francês, ele é feito a partir de uvas de um único vinhedo de 1,8 hectare.
Maturada em garrafa por sete anos, a produção resulta em lote exclusivo de 4 mil unidades, alinhada com as designações mais recentes do Rioja. “Estamos totalmente abertos a avançar nesse sentido”, diz Alejandro.

Outros exemplos dessa adaptabilidade da Beronia aparecem também na produção de Rosé, por exemplo, que equilibra a acidez natural da Rioja com a fruta e o frescor da Garnacha espanhola. Ou ainda no Verdejo, rótulo premiado de vinho fresco e jovem adicionado mais recentemente ao portfólio da marca.
Distante da tradição de envelhecimento do Tempranillo, foi em Rueda, a aproximadamente 300km de distância da Rioja, que a marca encontrou 65 hectares de vinhedo ainda em 2016. Por lá, iniciou a produção deste branco aromático, que combina notas herbáceas e cítricas partir de duas colheitas distintas.
“Quando decidimos fazer brancos, fomos para a denominação de origem mais importante da Espanha para esse estilo: Rueda. Construímos lá uma vinícola exclusiva para a elaboração de brancos. Ali trabalhamos com a variedade Verdejo, mas mantendo o estilo Beronia de pureza e qualidade”, explica Alejandro.
Inovação enraizada
Essa afinidade da Beronia com a inovação fica evidente quando se olha para a sede da vinícola. Erguida em 2018, ela chamou imediatamente a atenção pela adoção de princípios eficiência sustentável em seu projeto e funcionamento. As iniciativas abundam, indo do controle de temperatura por uma caldeira de biomassa, até o aproveitamento do declive do terreno para uma unidade produtiva subterrânea, com cobertura vegetal que otimiza a gestão da água.

Desenvolvido pelo grupo de arquitetura espanhol IDOM, o projeto logo ganhou notoriedade. E também certificações, como a LEED (que significa Líder em Eficiência Energética e Design Sustentável), do US Green Buidling Council, a Wineries for Climate Protection (WfCP) e outras.
"Temos projetos de biodiversidade para atrair fauna (insetos, aves, anfíbios) e enriquecer o nosso entorno”, diz López, reforçando que, quando o assunto é uma produção tão tradicional quanto a do Rioja, "o grande desafio é manter o estilo dos nossos vinhos ao longo do tempo e, ano após ano, melhorá-los.”
Mi Casa, su casa
A passagem de Alejandro López por São Paulo coincidiu com a estreia do projeto Mi Casa, da La Pastina. Apresentado por Marcelo Vilhena, do grupo González-Byass — ao qual a Beronia pertence — o enólogo guiou a harmonização do menu criado pelo chef Diego Carrillo para pouco mais de 20 convidados reunidos em sua residência, no Ipiranga.
Entre os destaques estiveram a charcutaria da Spazio Lab com Beronia Rosé 2024, os frutos do mar na brasa harmonizados com o Beronia Reserva 2020 e a paella de porco preto com socarrat intenso servida ao lado do Gran Reserva 2018, um dos rótulos emblemáticos da vinícola.

Em clima intimista, Carrillo recebeu clientes, parceiros e amigos da marca para uma experiência que evidenciou aquilo que López considera o principal trunfo da Beronia: vinhos gastronômicos, acessíveis e feitos para compartilhar à mesa. Mais do que inovação ou tradição, uma expressão de sociabilidade que sintetiza bem o terroir da longevidade espanhola.
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