Nova fase da Carbono Oculto avança sobre fundos de investimento — e Trustee reaparece como elo entre estruturas investigadas pela PF
Registros da CVM mostram conexões entre estruturas bloqueadas pela Justiça e instituições já citadas na primeira fase da operação

Mais uma operação da Polícia Federal voltou a avançar sobre um território delicado no mercado financeiro: o uso de fundos de investimento e fintechs em estruturas investigadas por suspeitas de lavagem de dinheiro ligada ao crime organizado.
Na nova fase da Operação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (28), a ofensiva ampliou o cerco sobre estruturas financeiras sofisticadas que, na avaliação dos investigadores, funcionariam como camada de blindagem para movimentações bilionárias consideradas suspeitas.
As autoridades colocaram no centro da investigação batizada de Operação Fluxo Oculto uma rede de fundos, empresas do setor de combustíveis e instituições financeiras.
Segundo a Justiça de São Paulo, essa rede teria sido usada para ocultar patrimônio e dar aparência legal à circulação de recursos ligados ao desvio de nafta petroquímica e à adulteração de combustíveis.
Uma análise dos registros públicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostra que os dois principais fundos atingidos pela operação — justamente aqueles que concentram os maiores bloqueios judiciais — compartilhavam a mesma custodiante: a Trustee DTVM.
A instituição pertence a Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro que deixou o Banco Master em 2024 e foi responsável pela área de investimentos da instituição financeira. O empresário Nelson Tanure também é frequentemente associado à empresa.
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Ao Seu Dinheiro, a Trustee afirmou que "não foi alvo da Operação Fluxo Oculto e também não recebeu das autoridades nenhuma intimação relacionada à investigação".
"Com relação aos fundos investigados, Zeus FIDC e Gran Capital FIDC, a Trustee esclarece que presta serviços de custódia de valores mobiliários aos fundos mencionados e, por natureza, não realiza a seleção dos ativos, não determina os deságios para fins de venda ou aquisição e tampouco realiza a supervisão operacional dos demais players contratados", completou.
Trustee volta aos holofotes em nova fase da operação da PF
A Trustee já havia aparecido na primeira fase da Operação Carbono Oculto, em 2025, em investigações ligadas ao entorno operacional do Banco Master.
Agora, a nova decisão judicial determinou bloqueios de aproximadamente R$ 85 milhões contra o Zeus FIDC, R$ 72 milhões contra o Gran Capital FIDC-NP e R$ 47 milhões contra o FIDC DB Crédito Global.
Segundo o juízo, os fundos movimentavam recursos “a coberto de aparência legal”, utilizando operações estruturadas com deságios inexistentes ou mínimos, liquidação em prazo inferior a 30 dias e estruturas concentradas em poucos cotistas.
A investigação afirma que Zeus e Gran Capital concentravam parte relevante da movimentação considerada suspeita e cita empresas como Petrodansk, Saara, Petroriente, Tercom, Arujá Terminais, Nova Rubília, Pix Card e Atena FIP dentro do fluxo investigado.
Na leitura das autoridades, a engrenagem financeira teria sido utilizada por organizações criminosas para circular e ocultar recursos provenientes do mercado ilegal de combustíveis.
Na primeira fase da Operação Carbono Oculto, a Trustee já havia sido alvo da Polícia Federal. Pouco antes da operação, porém, a financeira renunciou à administração de diversos fundos citados nas investigações.
Na ocasião, a instituição afirmou que a decisão foi motivada por questões de compliance relacionadas à atualização cadastral das estruturas.
A engrenagem dos fundos investigados
A nova etapa da operação ampliou o foco justamente sobre essas estruturas financeiras. A Nova Rubília Instituição de Pagamento aparece na decisão judicial como uma das fintechs que teriam recebido recursos diretamente do Zeus FIDC.
Já a Pix Card surge ligada ao Atena FIP, também mencionado pelas autoridades dentro da estrutura investigada.
Empresas como Petrodansk, Danpetro, Petroriente e Tercom — todas ligadas ao setor de combustíveis — aparecem nos informes enviados à CVM como cedentes relevantes de direitos creditórios dos fundos analisados.
Os registros públicos também mostram que parte relevante dessas estruturas compartilhava gestores, auditorias, administradores e prestadores de serviços.
O Zeus FIDC possui administração da Actual DTVM, gestão da Ello Gestora de Recursos, auditoria da BGM Auditores e custódia da Trustee DTVM.
Já o Gran Capital FIDC compartilha exatamente a mesma administradora, a mesma auditoria e a mesma custodiante do Zeus. A diferença está apenas na gestão, feita pela Libertas Asset.
Em outras palavras, a Trustee aparece como custodiante justamente das cotas dos dois fundos que concentram os maiores bloqueios determinados pela Justiça nesta nova fase da operação.
Dentro da estrutura de um fundo, a custodiante é responsável por guardar, registrar e controlar os ativos financeiros da carteira, além de acompanhar liquidações e validar os direitos creditórios que servem de lastro para as operações.
O FIDC DB Crédito Global, também citado na decisão judicial, aparece na CVM sob administração da Intra Investimentos DTVM, antiga Intrader DTVM, e gestão da Ello Gestora. Diferentemente de Zeus e Gran Capital, o fundo não possui atualmente a Trustee como custodiante nem a BGM como auditora em seu cadastro público.
As conexões que começam a aparecer
Além da Trustee, os registros da CVM revelam outras conexões entre as estruturas investigadas.
Entre os nomes que aparecem conectando os fundos estão Guilherme Mourão Vaz, diretor da Actual DTVM e ligado aos fundos Zeus e Gran Capital; Edward Bertelli Júnior, da Libertas Asset; e Luis Roberto Zaratin Soares, da Ello Gestora.
A Libertas Asset — gestora do Gran Capital — também possui um elo histórico documentado com estruturas ligadas ao entorno do Banco Master.
Os registros da CVM mostram que a gestora foi responsável pelo Raydan Invest FIDC-NP, fundo cancelado em 2023 que tinha a Master S/A Corretora como administradora e custodiante. O fundo, no entanto, não aparece na decisão judicial da Operação Fluxo Oculto.
O crescimento acelerado dos fundos na mira da PF
Os dados públicos da CVM também mostram uma expansão expressiva do patrimônio dos fundos que entraram na mira da Polícia Federal ao longo dos últimos anos.
O Zeus FIDC saiu de patrimônio líquido de R$ 17,5 milhões em dezembro de 2020 para R$ 89,8 milhões em abril de 2026, atingindo pico de R$ 112 milhões em agosto de 2025.
Já o Gran Capital FIDC avançou de R$ 10,2 milhões em dezembro de 2022 para R$ 74,4 milhões em abril deste ano — maior valor da série histórica disponível na CVM.
O FIDC DB Crédito Global também apresentou forte expansão, passando de R$ 6,2 milhões no fim de 2023 para R$ 46,9 milhões em abril de 2026.
Os informes mensais enviados à autarquia mostram ainda presença relevante de empresas do setor de combustíveis entre os cedentes dos fundos.
No Gran Capital, aparecem Petrodansk Indústria e Comércio de Hidrocarbonetos e Danpetro Distribuidora de Petróleo. Em novembro de 2025, o fundo registrava forte deterioração da carteira, com cerca de R$ 42,5 milhões em operações vencidas e inadimplentes sobre um total de R$ 51,1 milhões em ativos com risco.
No DB Crédito Global, a Petrodansk também aparece como cedente recorrente ao longo dos meses analisados.
Já no Zeus FIDC, a Liquipar Operações Portuárias passou a figurar entre os cedentes relevantes a partir de 2026.
Outro ponto que chamou atenção na análise dos registros foi o Brazil Special Opportunities Fund I. Embora o fundo não apareça diretamente na decisão judicial, ele compartilha a mesma combinação de administradora, gestora, auditoria e custodiante do Atena FIP, citado na investigação.
*Com informações do Money Times.
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