A Ambipar (AMBP3) não vai parar de cair? Ações derretem quase 60% enquanto mercado tenta rastrear onde está o caixa da empresa
Enquanto tenta reestruturar as finanças em crise sem recorrer à recuperação judicial, a Ambipar enfrenta uma onda de desconfiança no mercado

Parece déjà-vu, mas não é. Em mais um pregão marcado pela forte pressão vendedora, a Ambipar (AMBP3) voltou a desabar na bolsa brasileira nesta sexta-feira (3), enquanto o mercado busca entender onde está, de fato, o caixa da companhia.
Por volta das 14h20, as ações tombavam 57,45%, cotadas a R$ 1,17. A performance negativa desta sessão amplia a desvalorização acumulada nesta semana, que chega a 82% apenas nos últimos cinco dias.
No acumulado de 2025, a companhia soma queda de 90% , avaliada em pouco mais de R$ 1,9 bilhão na B3.
Quem investiu em Ambipar (AMBP3) lá no IPO, em 2020, também amarga um forte prejuízo. Os papéis negociam quase 60% abaixo dos patamares registrados na abertura de capital.
Problemas no caixa da Ambipar
Enquanto tenta reestruturar as finanças em crise sem recorrer à recuperação judicial, a Ambipar enfrenta uma onda de desconfiança no mercado.
A quantidade de apostas vendidas (short) em Ambipar disparou desde agosto, agora com quase 32% do total de ações em circulação (free float) shorteadas, de acordo com dados da plataforma ShortWatch.
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Nos últimos dias, a taxa média de aluguel dos papéis AMBP3 também disparou, passando de 3% em 29 de setembro para quase 400% em 1º de outubro, segundo o site.
A crise se intensificou após reportagens do Broadcast, do Estado de S. Paulo, e do Valor Pipeline levantarem dúvidas sobre o caixa da companhia.
Segundo o Broadcast, credores têm tentado rastrear onde estão os recursos da empresa. Fontes afirmaram que, desde a semana passada, há indícios de que apenas US$ 80 milhões (cerca de R$ 400 milhões) foram efetivamente encontrados.
Um analista ouvido pela agência destacou a incoerência da Ambipar em alegar falta de caixa para honrar compromissos, apesar de bilhões reportados em seu demonstrativo financeiro.
Já o Pipeline apurou que um FIDC (fundo de investimento em direitos creditórios) apontado como parte do caixa realizou movimentações recentes, incluindo uma captação de R$ 1,2 bilhão e aumento de provisões contra calotes.
Credores e gestores questionam se tais valores poderiam ser contabilizados como caixa, já que se tratariam de créditos com fornecedores — e não recursos líquidos disponíveis.
Um gestor ouvido pelo Money Times alertou que, se confirmado que o caixa caiu de R$ 4 bilhões para algo entre R$ 600 milhões e R$ 1,8 bilhão, a situação pode acionar covenants e abrir caminho para uma disputa judicial de grandes proporções — possivelmente culminando em recuperação judicial (RJ).
Uma alternativa seria a recuperação extrajudicial, considerada mais rápida.
Deutsche Bank ao ataque
O Pipeline também revelou um documento em que o Deutsche Bank apresentou sua versão sobre o contrato que levou a Ambipar ao pedido de proteção judicial.
Segundo o banco, o depósito de margem foi solicitado por conta da valorização do real frente ao dólar, mecanismo descrito como comum em operações de hedge.
A instituição destacou que tal exigência não deveria representar risco, já que a Ambipar reportou R$ 4,7 bilhões em caixa.
Na nova petição, o Deutsche Bank pediu autorização judicial para o vencimento antecipado das operações de derivativos.
“A narrativa espetaculosa da petição inicial simplesmente não corresponde à realidade dos fatos. A crise do Grupo Ambipar nada tem a ver com as operações de derivativos realizadas com o DBSA, sobre as quais a cautelar construiu uma verdadeira cortina de fumaça”, afirmou o banco.
O que diz a Ambipar (AMBP3)?
Do outro lado, a Ambipar acusou a instituição de cobrar garantias adicionais de forma irregular em contratos financeiros firmados no exterior.
Segundo documento da petição, o grupo fechou em setembro de 2025 um empréstimo de US$ 35 milhões e três operações de swap vinculadas a títulos verdes emitidos pela Ambipar Lux.
O problema, de acordo com a companhia, é que o banco estaria exigindo aportes não apenas pelas variações negativas dos swaps, mas também pela desvalorização futura de PIK Bonds que ainda não foram entregues.
Essa cobrança já teria forçado a Ambipar a gastar mais de R$ 200 milhões em poucos dias.
“A amplitude desse cross-default implica em um rombo financeiro de mais de R$ 10 bilhões,
consideradas todas as operações com as instituições financeiras, que serão credoras do grupo em futuro pedido de recuperação judicial”.
Além disso, a empresa alega que alguns bancos poderiam reter recursos diretamente de suas contas e investimentos sem precisar de autorização judicial, o que poderia inviabilizar completamente suas operações.
Venda de ativos é saída?
Questionado pela reportagem sobre a possibilidade de vender ativos, o gestor defendeu que seria melhor usá-los como garantia.
“Deixar que o assessor dos credores trabalhe essa negociação junto. Vender neste momento vai baixar demais o valuation. O mercado sabe que a empresa precisa de dinheiro.”
Ao fim do segundo trimestre, o endividamento líquido da Ambipar era de quase R$ 6 bilhões, com projeção de dívida líquida/Ebitda de 3,2 vezes para 2025, segundo cálculos do UBS BB.
Alavancagem e governança sob pressão
A alavancagem da Ambipar (AMBP3) sempre foi vista como risco. Desde o IPO em 2020, a empresa comprou mais de 70 empresas, mas a integração seguiu lenta e a geração de caixa insuficiente.
A avaliação de um gestor de ações que conversou com o Seu Dinheiro é que a situação de alavancagem da Ambipar pode ser ainda pior do que a reportada.
A empresa divulga uma dívida líquida de 2,5 vezes o Ebitda no 2T25. Porém, essa conta considera um Ebitda sem ajustes de aluguéis e arrendamentos que precisam ser considerados, segundo o gestor. Quando ajustada por esses parâmetros, a alavancagem chegaria a 3,7 vezes, nas contas do especialista.
Na segunda-feira, a companhia anunciou a contratação da BR Partners (BRBI11) para assessorá-la na crise. Fontes acreditam que ainda seja possível negociar de forma amigável com credores e evitar a RJ.
Segundo Angelo Belitardo, gestor da Hike Capital, em ambos os casos, é comum a entrada de capital novo via financiamento DIP ou de um novo sócio estratégico e conversão de dívidas em ações — o que tende a reduzir drasticamente o valor por ação existente.
Para um gestor ouvido pelo Money Times, a Ambipar foi construída sobre uma ideia promissora — ser uma empresa global com apelo ESG —, mas a execução esbarrou em múltiplas aquisições, alto endividamento e falhas de governança.
“O mercado abraçou a tese pelo ESG e crescimento, mas abandonou depois de perceber os riscos e os problemas de governança. Os controladores são centralizadores e pouco empáticos com investidores. Os pilares da tese — governança, operação e financeiro — ruíram juntos.”
Além da situação financeira, a Ambipar também vivencia instabilidades na alta cúpula, com saída de membros importantes na diretoria, inclusive do CFO, João Arruda.
Lições do caso Ambipar
Em coluna no Seu Dinheiro, o analista Ruy Hungria, da Empiricus, afirmou que a Ambipar é um caso clássico de descolamento entre preço e fundamentos que demonstra que essa descorrelação não pode durar para sempre.
“A ação chegou a subir mais de 400% enquanto o lucro desabava. Mesmo sem narrativa revolucionária, como inteligência artificial ou espaçonaves, os papéis negociaram por boa parte de 2024 e 2025 acima de 100 vezes lucros. A CVM até abriu investigação.”
*Com informações do Money Times.
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