Debandada da B3: quando a onda de saída de empresas da bolsa de valores brasileira vai acabar?
Com OPAs e programas de recompras de ações, o número de empresas e papéis disponíveis na B3 diminuiu muito no último ano. Veja o que leva as empresas a saírem da bolsa, quando esse movimento deve acabar e quais os riscos para o investidor

O mercado é feito de ciclos. Atualmente, a bolsa vive uma onda de OPAs (Ofertas Públicas de Aquisição), em que empresas compram de volta suas ações disponíveis com o objetivo de fechar o capital.
Só neste ano, foram pelo menos nove OPAs: Zamp, Santos Brasil, Eletromidia, Kora Saúde, Carrefour, JBS, Clearsale, Serena Energia e Wilson Sons.
Além disso, diversas empresas têm feito programas de recompra de ações, para guardar papéis negociados do mercado em sua própria tesouraria.
No curto prazo, os investidores podem até ter um ganho, já que essas ofertas costumam ser feitas com um prêmio em relação ao preço atual do papel. No entanto, quem carregou o papel no médio ou longo prazo teve prejuízo.
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Se esse ciclo é de retração, o anterior foi de expansão e marcou o recorde de aberturas de capital na bolsa brasileira.
Em janeiro de 2020, havia 389 empresas na bolsa. Um ano depois, eram 409 e, em janeiro de 2022, 461. Ou seja, em dois anos, foram 72 IPOs. O pico de IPOs foi em fevereiro de 2021: só naquele mês, mais curto, foram 13 novas emissões de ações.
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Porém, desde setembro de 2021, com o IPO da Vittia, não há mais nenhuma emissão primária de ações na bolsa de valores.
Desde então, diversas empresas fecharam capital. O dado mais atual da B3 é de setembro, com 415 empresas abertas. Dessas, apenas 369 estão listadas — o restante tem apenas emissão de dívidas, sem ações negociadas.
Muitas foram incorporadas com fusões e aquisições, como por exemplo Arezzo e Hering, Fleury e Pardini, Auren e AES, Aliansce Sonae e BR Malls, Rede D’Or e SulAmérica, nos últimos anos. Outras foram compradas, principalmente por estrangeiras.
O Seu Dinheiro conversou com Christian Keleti, CEO da gestora Alpha Key, Eduardo Carlier, codiretor da gestora Azimut Brasil Wealth Management, e Marcelo Nantes, head de renda variável do ASA, para entender esse movimento.
E o principal motivo para os dois ciclos, de aberturas e de fechamentos, é basicamente um: os juros altos. A Selic, atualmente em 15% ao ano, já está acima de 10% desde dezembro de 2021. A subida dos juros, depois que eles estiveram no menor patamar da história, em 2% ao ano, durante a pandemia, marcou justamente a seca dos IPOs.
A B3 até criou o Regime Fácil, que entra em vigor em janeiro de 2026, para estimular o acesso de companhias de pequeno porte ao mercado de capitais, mas estima que as primeiras empresas entrarão na bolsa por meio de emissão de dívidas, e não por oferta de ações.
Depois do boom de 2021, a realidade
Os juros baixos estimulavam investidores a procurarem ativos mais arriscados em troca de um rendimento mais alto. Para as empresas, essas aberturas de capital representavam uma forma barata de se capitalizarem.
"Quando você tem qualquer movimento mais amplo na bolsa, vai haver um efeito manada. Muita gente que não estava preparada entrou na festa. Mas, mais do que isso, também vale a reflexão de que o mercado talvez não estivesse preparado para analisar essas empresas", afirma Marcelo Nantes, head de renda variável do ASA.
"Das 50 empresas da última leva de IPOs, poucas sobreviveram", diz Christian Keleti, CEO da Alpha Key.
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Sem apetite para crescimento
Outro motivo é a falta de apetite das empresas para crescer, seja de forma orgânica, seja por meio de aquisições. Normalmente, elas buscam acesso ao mercado porque querem crescer.
Porém, os juros altos também afetam o consumo e, consequentemente, o crescimento das companhias — aliás, frear o consumo e a inflação é justamente o objetivo do Banco Central ao elevar a Selic.
"A maior parte dos IPOs de 2020 a 2021 foram de empresas ligadas ao ciclo doméstico, com dependência razoavelmente grande do mercado local. Não eram grandes exportadoras e ainda estavam em campanha de consolidação de seu market share. Elas entraram no mercado para acessar capital para crescer", diz Eduardo Carlier, codiretor da gestora Azimut Brasil Wealth Management.
Se as companhias não crescem, precisam fazer a conta para ver se ainda vale a pena manter o capital aberto. Isso porque uma empresa com ações na bolsa precisa ter um departamento de relações com investidores, relatórios trimestrais auditados, pagar taxas para a B3, entre outros custos.
Se o mercado aqui não está para peixe, algumas empresas enxergam que há potencial para atrair investidores maiores, menos impactados pelos juros locais, ao abrir capital no exterior. É o caso da JBS, que passou a ser negociada na bolsa de Nova York (NYSE). Também é a estratégia da dona da Gol, a Abra, que sinalizou a intenção de abrir capital nos EUA. Ela também é dona da Avianca.
Empresas estão baratas para aquisições
Com valuations baixos, também é um momento interessante para a consolidação de mercado, com fusões e aquisições — algumas empresas saíram da bolsa justamente porque foram adquiridas por outras de capital fechado.
Muitas dessas aquisições foram feitas por grupos estrangeiros. Com receita em moeda mais forte, esses estrangeiros veem ativos na bolsa bastante depreciados. "É uma chance de entrarem em um país grande e com ativos irreplicáveis", afirma Keleti.
É o caso da Zamp, antiga BK Brasil (ZAMP3), comprada pela acionista controladora MC Brazil F&B Participações SA, ligada ao fundo soberano de Abu Dhabi, Mubadala Capital; da Santos Brasil (STBP3), adquirida pela francesa CMA Terminals; e da Wilson Sons (PORT3), incorporada pela gigante de navegação MSC. A matriz francesa do Carrefour também comprou as ações de sua divisão brasileira.
Além disso, muitas companhias estão recomprando as próprias ações. Muitas vezes, essas ações recompradas são canceladas.
A recompra é um instrumento similar ao dividendo em matéria de dar retorno ao acionista, pois aqueles que não vendem acabam ficando com um percentual maior da companhia após o cancelamento dos papéis.
Um dos motivos é justamente o valuation baixo para as ações. Ao gerar caixa, a direção das empresas precisa decidir se irá investir em aquisições, novas máquinas ou plantas, repartir com os acionistas ou, ainda, comprar as próprias ações.
Em alguns momentos, o melhor a fazer é de fato investir em si mesma. A companhia acredita que a ação está barata e que, no futuro, pode voltar a subir.
Com fechamento de capital e programas de recompra de ações, as ações disponíveis para o mercado, ou seja, em free float, caíram aproximadamente 13% em volume entre janeiro de 2022 e janeiro deste ano, desconsiderando Petrobras. Trata-se de cerca de R$ 260 bilhões, segundo cálculos da Alpha Key.
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A bolsa está mesmo barata?
A resposta para essa pergunta tem dois lados. O valuation das empresas pode até estar atraente, mas a comparação com a renda fixa é até injusta. Ao analisar a relação do preço das ações e do lucro líquido das empresas, sim, as empresas da bolsa estão sendo negociadas a valores abaixo da média histórica.
Mas, ao analisar todos os investimentos disponíveis, a bolsa ainda não está tão atraente. O motivo, de novo, são os juros.
É difícil bater um retorno de 15% ao ano praticamente sem risco com ações de empresas abertas. "Com o CDI a 15% ao ano, não acho a bolsa barata", diz Nantes.
Então por que então a bolsa está em alta nos últimos dois meses? O movimento é uma antecipação ao corte de juros, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Ainda que o Ibovespa tenha ganhado tração recentemente, essa valorização ainda não atingiu as empresas médias e small caps.
Isso porque quem impulsionou a alta da bolsa não foram os investidores locais, mas grandes fundos estrangeiros, que estão migrando o capital para países emergentes, entre eles o Brasil. E esses estrangeiros costumam investir em grandes companhias, com alta liquidez.
Entre as empresas menos capitalizadas e fora do Ibovespa, muitas continuam com valores muito baixos e ainda podem realizar fechamentos de capital, recompras de ações ou mesmo serem adquiridas por uma empresa maior — mantendo a onda de debandada da bolsa.
Qual o risco de ter menos ações na bolsa
Com menos aberturas de capital, saídas de empresas da bolsa e programas de recompra de ações, os investidores têm menos papéis disponíveis para comprar.
Para a empresa, o risco é afastar alguns investidores. Se ela tem menos ações disponíveis, acaba afastando grandes fundos, bancos ou gestoras que compram altos volumes.
Outro problema é que empresas menos líquidas, ou seja, menos negociadas, acabam sendo mais voláteis. "Para o investidor, isso é ruim. Ele requer um retorno maior, o que acaba fazendo com que a empresa negocie a um valuation mais baixo", afirma o diretor do ASA.
Como consequência, há uma concentração maior da bolsa em apenas alguns setores. Bancos e commodities são dois pesos-pesados no mercado hoje. É o que diz Carlier, da Azimut. A consequência é que o mercado de capitais fica cada vez mais distante da economia real do país, medida pelo PIB.
E quando a debandada vai acabar?
Quando o país voltar a crescer. Isso porque o mercado de capitais é uma das formas usadas pelas companhias para levantar capital para crescer. Então, quando a economia voltar a expandir de forma mais pujante, é provável que o ambiente na bolsa também melhore.
Os juros também são um componente muito importante para que o investidor volte para a bolsa, e, portanto, novas empresas tenham interesse em abrir capital. E, quando esse ciclo começar, as ações devem ter uma grande valorização.
Isso porque o mercado de renda fixa é muito maior do que o de ações. O valor de mercado de todas as empresas abertas na bolsa brasileira é de R$ 4,76 bilhões, ou US$ 862 milhões. Comparado às bolsas americanas, podemos lembrar que só a Apple vale mais de US$ 4 trilhões.
Já o tamanho do mercado de renda fixa no Brasil é de R$ 15 trilhões. Qualquer dinheiro que migrar da renda fixa para a bolsa já pode representar uma boa valorização das ações.
A conta da Alpha Key é que, se 5% dos recursos saírem do mercado de renda fixa, isso já representaria uma alta de 20% na bolsa, considerando as ações em free float.
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