Bolsonaro está menos popular, mas com 329 votos na Câmara?
Votação de projeto sobre companhias aéreas mostra expressiva votação favorável ao governo, mas isso não necessariamente vale para outros temas

A quarta-feira foi de movimentada agenda política. Tivemos a reforma dos militares, pesquisa Ibope de popularidade do presidente e votação do projeto que libera capital estrangeiro no setor aéreo. Mas qual o saldo disso tudo para o governo Bolsonaro?
Começando pelo vetor “positivo”, o projeto que finalmente abre o mercado de aviação para empresas estrangeiras teve 329 votos favoráveis. Apoio expressivo para um projeto do governo e que tentou ser votado diversas vezes, mas sem sucesso. O tema entrou na pauta do Congresso em 2010, com a possibilidade de ampliação do capital estrangeiro de 20% para 49%. Com o governo Temer a proposta ganhou um toque ainda mais liberal e acabou com qualquer limite para os estrangeiros. É uma legislação mais aberta que o padrão internacional. A maioria dos mercados impõe algum limite para estrangeiros no setor aéreo.
Para dar um parâmetro, para a reforma da Previdência são necessários 308 votos. Isso quer dizer que a base está formada? De forma alguma, pois o tema em discussão é bem menos polêmico que a Previdência, mas sinaliza a possibilidade de construção de uma base forte o suficiente. A questão ainda em aberto é a que custo isso acontecerá.
Já a reforma dos militares, que prevê uma reestruturação de carreiras, resultando em economia de apenas R$ 10 bilhões, trabalha no sentido de aumentar o custo de formação dessa base de apoio.
O texto parece ter desagradado governistas e oposição e por mais especificidades que a carreira tenha, vai ser usado por outros grupos que serão prejudicados pela reforma para fazer barulho e barganha.
Já o Ibope mostrou perda de popularidade do presidente Jair Bolsonaro. Difícil apontar um único “culpado”, pois a maré de notícias negativas tem sido grande. Mas se o vetor principal for a reforma da Previdência, o presidente não tem com o que se preocupar. Medidas impopulares ou pouco compreendidas geralmente estão na direção certa e resultam em dividendos políticos/eleitorais posteriores.
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O próprio Plano Real se fosse colocado sob votação popular certamente seria rejeitado, pois o brasileiro estava confortável com indexações, gatilhos salariais e outras coisas impensáveis hoje.
Um amigo meu fez o melhor resumo que vi sobre essa questão de popularidade: “Minha mãe tomou medidas impopulares durante a minha infância inteira. Sou muito grato a ela”.
*Colaborou Marina Gazzoni
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