Ibovespa fecha em alta e sustenta os 100 mil pontos pela quinta sessão consecutiva
O Ibovespa ganhou força na reta final do pregão e fechou em alta, apesar da cautela vista nas bolsas americanas. O dólar à vista teve leve queda

Até o último dia 19, o Ibovespa nunca tinha conseguido terminar um pregão acima dos 100 mil pontos. Mas, agora que rompeu a barreira dos três dígitos, o índice parece não querer mais deixar esse nível.
O mercado brasileiro, afinal, remou contra a maré negativa vinda do exterior nesta quarta-feira (26): o Ibovespa destoou das bolsas de Nova York e fechou em alta de 0,60%, aos 100.688,60 pontos — a quinta sessão consecutiva em que o índice encerra além dos 100 mil pontos. O dólar à vista caiu 0,13%, a R$ 3,8471.
Lá fora, as incertezas relacionadas ao front da guerra comercial provocaram oscilações bruscas de humor, tirando força dos mercados acionários ao longo do dia. No entanto, a relativa calmaria vista no cenário doméstico abriu espaço para uma recuperação do Ibovespa — vale lembrar que, ontem, o índice caiu quase 2%.
[captacao]
Jogo de xadrez
O dia começou positivo para os mercados globais, com as bolsas dos EUA avançando em bloco. Mas esse movimento se esvaiu e, ao fim da sessão, o Dow Jones (-0,04%) e o S&P 500 (-0,12%) foram ao campo negativo — o Nasdaq conseguiu sustentar alta de 0,32%. E essa perda sincronizada de força teve relação com os sinais conflitantes emitidos pelas autoridades americanas.
No início do dia, o Secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, afirmou que um acordo comercial entre os Estados Unidos e a China está "90% completo", dizendo esperar que um acerto seja fechado até o fim do ano.
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A fala de Mnuchin foi entendida como um sinal de que as conversas oficiais entre Trump e o presidente da China, Xi Jinping, previstas para ocorrerem durante a reunião do G-20, poderiam resultar em algum tipo de trégua entre as partes, trazendo alívio ao front da guerra comercial.
Mas Trump assumiu um tom mais reticente ao falar sobre o tema. Em entrevista à Fox Business, o presidente americano disse que "é possível" que um acordo seja alcançado, mas afirmou estar "feliz" com o atual estado das relações entre os dois países.
O republicano ainda disse que mais US$ 300 bilhões em produtos chineses podem ser tarifados em 25%, "ou, talvez, em 10%", caso um acordo com Pequim não seja atingido — declarações que caíram como um balde de água fria nos mercados e reacenderam os temores quanto a uma disputa comercial mais ampla no mundo.
Essa piora de humor global após as falas de Trump também afetou as negociações de moedas. O índice DXY, que mede o desempenho do dólar ante uma cesta com as principais divisas do mundo, ganhou força e passou a operar em alta a partir do meio da tarde.
Em comparação com as divisas emergentes, no entanto, o dólar teve um dia de perdas, embora tenha reduzido as quedas na segunda metade da sessão. A moeda americana recuou ante o peso mexicano, o peso colombiano, o rand sul-africano e o peso chileno, mas subiu em relação ao rublo russo.
No mercado brasileiro, analistas e operadores destacam que a demanda por dólares tem aumentado nos últimos dias, quando a moeda americana chegou a patamares próximos de R$ 3,80 — na mínima do dia, a moeda chegou ao nível de R$ 3,83 no segmento à vista.
Assim, a atuação do Banco Central (BC) tem sido importante para acalmar os ânimos do mercado de câmbio. O BC colocou mais US$ 1 bilhão em dinheiro novo no mercado, via leilão de linha com compromisso de recompra — uma operação semelhante foi feita ontem. As operações buscam sanar “disfuncionalidades” do mercado, em meio à menor liquidez.
Alívio e cautela
No front doméstico, o fato de a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidir manter preso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também contribuiu para trazer algum alívio ao Ibovespa.
Ontem, a possibilidade de soltura do petista trouxe instabilidade extra às negociações, que já exibiam viés negativo. Analistas e operadores ponderaram que a eventual concessão de liberdade ao ex-presidente enfraqueceria o ministro da Justiça, Sergio Moro, o que poderia gerar turbulências ao cenário político.
No entanto, as atenções do mercado local seguem voltadas à tramitação da reforma da Previdência na comissão especial da Câmara. E sinais de que o colegiado só votará o tema no início da próxima semana trouxeram apreensão às negociações.
O cronograma da Previdência é bastante apertado, já que o governo — e os mercados — espera aprovar a pauta no plenário da Casa até meados de julho, já que o Congresso entrará em recesso na segunda metade do próximo mês.
A própria líder do governo na Câmara, Joice Hasselmann, admite que a votação pode ficar para a semana que vem, embora afirme que esse atraso não trará maiores impactos ao cronograma de tramitação da proposta. E essa percepção de que um ligeiro atraso não compromete os planos do governo ajudou a trazer alguma calma ao mercado.
"Apesar de se falar que a Previdência tem apoio de um número grande de deputados, o mercado vê que [a tramitação] está um pouco embolada", diz Pedro Paulo Silveira, economista da Nova Futura. "O tempo é curto, e isso traz cautela".
Ajustes nos juros
A curva de juros exibiu oscilações moderadas nesta quarta-feira — a ponta curta ficou praticamente estável, enquanto a longa teve ajustes negativos. Há a percepção de que o Banco Central (BC) irá agir de maneira cautelosa em relação aos futuros cortes da Selic, o que impacta as expectativas em relação aos DIs mais curtos.
As curvas com vencimento em janeiro de 2021, por exemplo, subiram de 5,95% para 5,97%. Na ponta longa, por outro lado, os DIs para janeiro de 2023 caíram de 6,78% para 6,75%, enquanto os para janeiro de 2025 fecharam em baixa de 7,29% para 7,24%.
Compra aprovada
As ações PN do Itaú Unibanco (ITUB4) apareceram no campo positivo do Ibovespa e fecharam em alta de 2,38%, com o mercado reagindo positivamente à aprovação, pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), da operação de compra de 11% da Ticket — uma das principais empresas do mercado de benefícios, ao lado de Sodexo e Alelo — sem restrições.
Os demais ativos do setor bancário também ajudam a dar força ao Ibovespa, embora apresentem desempenhos menos intensos. As units do Santander Brasil (SANB11), por exemplo, subiram 1,31%, enquanto Bradesco ON (BBDC3) e Bradesco PN (BBDC4) avançaram 0,39% e 1,25%, respectivamente. Banco do Brasil ON (BBAS3) teve ganho de 2,17%.
Commodities se recuperam
Apesar das incertezas no exterior, o mercado de commodities teve um dia bastante positivo. O minério de ferro subiu 2,77% no porto chinês de Qingdao; o petróleo também avançou, tanto o WTI (+2,68%) quanto o Brent (+2,20%).
Esse contexto ajudou a dar força aos papéis de empresas ligadas às commodities, caso de Vale ON (VALE3), em alta de 0,39%, CSN ON (CSNA3), com ganho de 0,50%, Gerdau PN (GGBR4), com valorização de 2,31%, e de Usiminas PNA (USIM5), subindo 1,42%.
Já as ações da Petrobras apresentaram comportamentos mistos: os papéis PN da estatal (PETR4) avançaram 0,58%, enquanto os ONs (PETR3) caíram 0,49%.
Ontem, a Caixa Econômica Federal informou que se desfez da participação que detinha na Petrobras com uma oferta de ações que rendeu R$ 7,3 bilhões ao banco público. Quem reservou as ações ON da estatal na oferta vai pagar R$ 30,25 por papel.
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