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Felipe Miranda
Exile on Wall Street
Felipe Miranda
É sócio-fundador e CEO da Empiricus
ANÁLISE

Você pode jejuar por 40 dias e 40 noites para multiplicar seu capital

As small caps serão as grande campeãs do próximo ciclo positivo da Bolsa brasileira

23 de janeiro de 2019
12:13

“Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome; E, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães. Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. Então o diabo o transportou à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo, E disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, E tomar-te-ão nas mãos, Para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra. Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus. Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás. Então o diabo o deixou; e, eis que chegaram os anjos, e o serviam.”

Sempre achei essa história de comer de três em três horas meio esquisita. Aprendi nas aulas de religião com o Ceciélio (será que é assim que escreve?) o mérito do jejum. Depois fui ver que havia base científica para o argumento – Taleb mesmo, minha maior referência intelectual em finanças, é um defensor da prática.

Se o seu corpo não é submetido a alguma volatilidade, não libera estressores e hormônios que podem ser cruciais ao desenvolvimento e à boa saúde. Segundo consta, a ausência de alimentos por longos períodos muda o metabolismo, se liga à diminuição do tecido adiposo (a famosa “gorduris”), aumenta a produção de GH (hormônio do crescimento), reduz inflamações, promove um processo de autofagia do corpo, com células digerindo certos elementos em prol da reutilização de energia, e por aí vai.

Não sei se é verdade mesmo. A ciência é um dos deuses modernos. O Iluminismo tentou matar Deus e colocá-la, junto ao dinheiro e à tecnologia, como resposta para tudo, num tripé de pseudorreferências incapaz de preencher nosso vazio existencial. Ah, como esquecer aquele texto do André Lara Resende: “Em busca do heroísmo genuíno”. Se só temos a luz da razão para nos confortar, quem poderá nos defender?

Bom, resgatando o fio da meada, o problema é que, com 25 segundos de busca no Google, você encontra artigos apontando o jejum intermitente como a oitava maravilha do mundo, e acha outros “comprovando” justamente o contrário. As conclusões dos artigos científicos (ou seriam cientificistas?) apenas provam crenças prévias do pesquisador. Sob tortura, os dados confessam qualquer coisa.

Sei lá. Respeito todas as correntes, bebo de todas elas (posso até ter dúvidas sobre a forma certa de comer, mas beber é comigo mesmo!). Admito, porém, que, como um amante da volatilidade, costumo ser cético sobre a perseguição da linearidade e da falta de perturbação aleatória, pensando que o excesso de intervenção para suprimir as variações e empurrá-las para debaixo do tapete torna os sistemas excessivamente frágeis.

Seja como for, Mateus 4:1-11 – o trecho aí do começo – representa uma lição de disciplina e paciência.

Talvez eu seja o último romântico dos litorais deste Oceano Atlântico. Com alma feudal e apaixonado pelo rock dos anos 80 de Brasília, quem sabe pudesse, com muita ajuda da sorte e respeitadas as devidas e enormes proporções, me chamar de trovador solitário, em homenagem a Renato Russo e às suas apresentações totalmente só, acompanhado apenas de um violão – o álbum homônimo viria a ser a base para canções que depois integrariam os primeiros três discos da Legião Urbana, deixando um pequeno espólio também para o Capital Inicial (especificamente, “Veraneio Vascaína”).

A verdade é que devo estar pregando no deserto, mas preciso voltar ao tema de ontem. Mais precisamente, às small caps. Desculpe se pareço insistente. Ok, você tem razão. Não só pareço. Tenho sido muito insistente.

Mas veja: na minha opinião, essa classe de ativos será a grande campeã do próximo ciclo positivo da Bolsa brasileira. Elas estão absolutamente abandonadas agora. Ninguém quer saber disso neste momento. Qual o resultado? Trata-se simplesmente do segmento de mercado mais desarbitrado, com os valores das ações totalmente amassados. Qualquer melhora aqui pode se transformar em verdadeiras multiplicações de capital, porque, resumidamente: i) com lucros perto de zero ou até mesmo prejuízos, qualquer evolução implica brutal variação percentual; ii) os valuations estão muito depreciados; e iii) ninguém tem isso em carteira.

Depois do último ciclo negativo (a era Dilma dizimou as small caps e os fundos focados nesse nicho), ninguém mais quer saber desse negócio. Mas o que me parece errado no “consciente coletivo”? Estão confundindo um ciclo ruim com um defeito estrutural dessa classe de ativos. Elas não eram tão boas quando se multiplicaram por zibilhão de vezes no período 2003-2008; nem eram tão ruins quando caíram pacas com as mazelas da Nova Matriz Econômica. Ao mesmo tempo, os gestores de ações não eram tão geniais quando ficaram trilhardários no ciclo positivo, nem tão incapacitados quando perderam dinheiro na hora ruim – eram só ciclos de mercado. Agora, todos voltaram a ser gênios, claro – a Faria Lima vira uma clássica Organização Exponencial nos momentos de bull market (mercado em alta). A amostra de gênios ultrapassa 100 por cento da população.

As small caps representam apenas um beta gigantesco, tendo enorme sensibilidade às condições sistêmicas. Pagam muito mal quando as coisas vão mal, e muito bem quando as coisas vão bem.

Até reconheço o desconforto de se investir em aplicações de beta alto. Evita-se esse tipo de investimento porque é justamente na hora ruim que você mais precisa de dinheiro; e é aí que o negócio paga mal.

Tenho dois pontos, porém. O primeiro se apoia na perspectiva macro muito favorável. Não vou repetir as bases do meu otimismo sobre as condições sistêmicas para os mercados brasileiros. Tenho limites até para a minha própria insistência. Mas aqui se trata de uma questão lógica: se as small caps pagam muito bem quando as coisas sistêmicas vão bem, e estou otimista quanto às condições sistêmicas, o corolário pragmático é de que entendo ser fundamental ter alguma exposição às ações de menor liquidez.

O segundo ponto é que, sinceramente, em alguma coisa como 20 anos investindo em ações (sim, eu comecei cedo), não me lembro de uma situação em que o gap entre large e small caps foi tão grande. Alguém vai arbitrar isso agora. Vale tanto em termos de liquidez quanto de valuation.

A tabela abaixo resume como o ilíquido ficou ainda mais ilíquido, mesmo num período de incremento de liquidez geral da B3 e alta destacada das ações mais líquidas (o Ibovespa subiu 140 por cento desde o último piso; em dólar, multiplicou por 3x):

O barato não fica mais barato indefinidamente. O ilíquido não fica cada vez mais ilíquido. Se o sistêmico melhorar, isso aqui será revertido. Não subestime o impacto de um bull market sobre as small caps.

Talvez seja cedo para falar disso agora. Talvez depois seja tarde demais. Eu não sei. Agora, treinado em precificações por arbitragem (passei dois anos da minha vida só estudando prêmio de risco), quando vejo uma distorção muito grande, sou tomado por uma sensação súbita de que uma hora a coisa muda. Tudo que você precisa fazer é sobreviver até lá.

As tentações de 40 dias no deserto serão de toda sorte – vão lhe oferecer crédito privado, vão dizer que é um salto duplo carpado para você que ainda está na poupança (um portfólio com 30 por cento de crédito privado é muito mais arriscado do que outro com 5 por cento de small caps), vão lhe oferecer aquele COE cuja taxa de estruturação e de corretagem estão ocultas, e são altíssimas.

O diabo, que muitas vezes aparece vestido de gerente do banco ou de agente autônomo da corretora, não entende nada de small caps. Assim que o Coisa-ruim o deixar, o banquete será servido pelos anjos. Aproveite as melhores microcaps para o momento aqui.

Mercados iniciam a quarta-feira se recuperando após um clima mais negativo na véspera. Há mais otimismo com discurso de Paulo Guedes em Davos e alívio nas Bolsas internacionais.

Mesmo sobre as críticas à falta de detalhes na fala de Bolsonaro ontem, pondero: queriam que ele detalhasse a Previdência ali no púlpito? Não seria muito mais inteligente estrategicamente apresentar o plano e suas nuances diretamente ao Congresso, mostrando respeito e prestígio ao órgão de que depende para a aprovação do negócio? Desculpem-me os críticos, mas segurem vossa ansiedade. Para arrumar as contas públicas, não precisamos aparecer e jogar para a torcida, mas, sim, da real aprovação no Congresso. O resto é conversa, literalmente.

Em Wall Street, notícias apontando conversas em andamento mais normal entre EUA e China sobre suas questões comerciais ajuda a retomar o ânimo. Novela é longa e chata, com vários capítulos ainda por vir.

Agenda doméstica ressalta novas evidências de inflação bem-comportada. IPCA-15 subiu 0,30 por cento em sua última medição, contra projeção de 0,33. Dados do Caged e fluxo cambial semanal completam as referências do dia. Nos EUA, sai atividade na região de Richmond.

Ibovespa Futuro sobe 0,6 por cento, dólar e juros futuros caem.

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