Menu
Luciana Seabra
Advogada do Investidor
Luciana Seabra
É CFP®, especialista em fundos de investimento e sócia da Empiricus
2018-12-03T11:03:20+00:00
Advogada do Investidor

Não é hora de acabar com o clubinho fechado dos investidores qualificados?

Não é de hoje que veículos de comunicação, as próprias redes sociais e novos modelos de negócio forçam as torres de marfim do universo financeiro, dando acesso a produtos e ideias até então encastelados

3 de dezembro de 2018
10:46 - atualizado às 11:03

Em 13 de janeiro de 1898, o renomado escritor francês Émile Zola rompeu as fronteiras da literatura ao publicar um artigo, na primeira página do jornal L’Aurore, em que denunciava injustiças na vida política e social de seu país.

A carta aberta ao presidente francês, intitulada “J’accuse!” (“Eu acuso!”, em francês), inflamou o debate público sobre o chamado “Dreyfus affair”, um escândalo político em torno de um oficial de origem judaica, condenado à prisão perpétua por espionagem, sem provas suficientes para tal.

Zola ficou conhecido como um dos primeiros homens de letras a denunciar abusos de poder cometidos por autoridades. Seu texto é considerado um marco na história do jornalismo. Por causa do artigo, o escritor foi julgado, condenado e precisou se exilar na Inglaterra.

Não só a literatura tem suas torres de marfim – no universo da economia elas se espalham. E é raro quem ouse jogar suas tranças.

Do lado de cá, também temos nossas torres, inclusive (ou principalmente) quando há dinheiro envolvido.

Jargões excludentes

Nos próprios jornais, juntamente com o nascimento das editorias de economia na década de 70, brotaram os jargões excludentes. Conta-se que os repórteres do ramo usavam pastas de couro, o que dava a eles um ar de superioridade em relação ao restante da equipe.

Não é de hoje que veículos de comunicação, as próprias redes sociais e novos modelos de negócio forçam as torres de marfim do universo financeiro, dando acesso a produtos e ideias até então encastelados. Vejo ainda, entretanto, um descasamento entre a teoria e a realidade nas leis que regem esse ambiente.

Quem está no chão de fábrica vê os efeitos deletérios ao portfólio do pequeno e médio investidor de tal afastamento. Na teoria, alguém de lá de cima cuida da segurança de quem está embaixo. Na prática, parece que lhes faltam binóculos.

Não há hoje, ao meu ver, regra mais encastelada do que a de investidores qualificados, ou seja, a que restringe a quem tem mais de 1 milhão de reais em aplicações financeiras vários produtos financeiros. Listo abaixo somente três das inúmeras distorções causadas hoje por tais regras:

Concentração regional: somente um investidor qualificado pode ter acesso no Brasil a um fundo que aplica 100 por cento dos recursos no exterior ou a um BDR – recibo de ação de empresa estrangeira negociado na Bolsa local. Tal regra restringe, na prática, somente aos milionários a tão recomendável diversificação internacional dos investimentos.

Investir em um fundo DI de taxa 5 por cento ao ano qualquer brasileiro pode; acessar o produto da Pimco, uma das maiores referências internacionais em gestão de renda fixa, só o milionário.

Ou: comprar ação de uma small cap do país em que empreender é quase uma aventura, qualquer um pode; já os BDRs do Google estão vetados ao investidor de varejo.

Exclusão: à medida que crescem e se internacionalizam, as próprias gestoras brasileiras têm interesse em aumentar a parcela investida no exterior. Aconteceu, por exemplo, neste ano, com a SPX.

A reconhecida gestora de multimercados brasileira percebeu que entregaria melhor retorno ajustado ao risco se alterasse o regulamento: queria poder investir mais de 20 por cento fora do país. Resultado: o fundo ficou automaticamente restrito a investidores qualificados.

Acessar um multimercado acomodado em LFTs que cobra 2 por cento ao ano para entregar menos do que o CDI, pode (os bancos estão cheios deles). E o produto que, ao mesmo custo, entrega 157 por cento do CDI desde sua criação com a melhor relação risco/retorno da indústria? Esse está proibido de chegar ao varejo.

Concentração em ativos: para a infelicidade dos investidores de pequeno porte, a regra dos qualificados acaba de chegar à previdência. As regras mais recentes permitem também aos gestores do segmento diferenciarem produtos. Se o fundo é para qualificados, por exemplo, pode chegar a 100 por cento em ações. Já se é para o varejo, o máximo permitido na renda variável é 70 por cento.

Fora o incentivo à concentração na renda fixa na parcela do patrimônio mais de longo prazo (que já supera os 90 por cento), vejo distorções como o nascimento de fundos com 70 por cento alocados em Bolsa que cobram taxa de performance sobre o CDI. Mais uma vez, quem perde é o pequeno investidor.

Poderia ir muito além, passando pelos fundos que buscam retorno absoluto, pelos que são listados em Bolsa... mas talvez a mensagem já esteja clara.

Enquanto, na Torre de Marfim, os doutos se orgulham de proteger o investidor, aqui no chão ele é uma vítima.

A mesma regulação que faz vistas grossas a taxas de administração abusivas em nome das leis de mercado controla com mãos de ferro tentativas de dar acesso a produtos sofisticados – ou mesmo de se comunicar com o investidor sem papas na língua.

A alternativa?

Simples: punição de abusos do lado da oferta e orientação financeira do lado da demanda. Ou: prenda os ladrões em vez de murar a minha casa.

Mercados

Dito isso, vamos às vacas frias. Ou quentes. A última semana de novembro pavimentou o caminho para um fim de ano mais positivo, sob uma trégua da guerra comercial entre os EUA e a China (ou pelo menos o que pareceu ser isso), um banco central americano mais bondoso e os países exportadores segurando a oferta para conter a queda de preços do petróleo.

São pelo menos três presentes que nos ajudam a acreditar em um rali de fim de ano na Bolsa local – na sexta-feira, o Ibovespa chegou a ultrapassar os 90 mil pontos. Os mercados americanos já abriram dando o tom positivo.

A agenda do dia tem, nos EUA, discursos de dois diretores do banco central e as leituras do PMI/Markit e do ISM, que ajudam a entender a saúde do setor industrial. Da zona do euro também vêm dados de PMI, assim como da China, já divulgados, acima do esperado.

Do lado de cá, temos hoje dados de distribuição de veículos da Fenabrave e resultado da balança comercial de novembro.

O Ibovespa Futuro abre em alta de 2 por cento, o dólar recua 0,8 por cento contra o real e os juros futuros longos também iniciam o dia em queda.

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Comentários
Leia também
UMA OPÇÃO PARA SUA RESERVA DE EMERGÊNCIA

Um ‘Tesouro Direto’ melhor que o Tesouro Direto

Você sabia que existe outro jeito de investir a partir de R$ 30 em títulos públicos e com um retorno maior? Fiz as contas e te mostro o caminho

ninguém mais embarca

Anac anuncia suspensão das operações da Avianca Brasil

Com a medida, estão suspensos todos os voos até que a empresa comprove capacidade operacional para manter as operações com segurança.

Calma, gente

Fala de Guedes sobre eventual saída do cargo não tem tom de ameaça

Ministro Paulo Guedes fez as colocações à “Veja” de forma tranquila, como se disse que: “se não querem meu trabalho, vou-me embora”. Não tem alarme nenhum para ele sair.

Mercado de capitais

Bancos têm R$ 40 bilhões “contratados” em ofertas de ações de empresas na bolsa

Número considera tanto ofertas públicas iniciais de ações (IPO) como de empresas já listadas (follow ons) e pode ser ainda maior, dependendo da aprovação da reforma da Previdência

Deu ruim

Venda da Braskem à Lyondell emperra e complica a situação da Odebrecht

Fator número um para a reticência da Lyondell em comprar a Braskem seria a incerteza gerada pelo projeto de extração de sal-gema em Alagoas

será que ele acertou?

De volta para o futuro: as previsões de George Soros para a política e a economia

Amado e odiado por diferentes grupos, o investidor é o tipo de figura que, ao longo do tempo, adquiriu ares míticos; confira o que Soros já “previu” ao longo do tempo — e o que ele acertou

Próxima etapa do Minha Casa Minha Vida

União doará terrenos para construtoras

Empresa interessada num imóvel do governo terá de se comprometer a bancar a administração condominial de um Minha Casa Minha Vida por 20 ou 30 anos

bateu o martelo!

Cade aprova fatia maior da CaixaPar no Banco Pan

A operação corresponde ao exercício de opção de compra; o BTG, que antes tinha 50,6%, passa a deter também o mesmo porcentual de 41,7%; outros 16,6% do Banco Pan estão distribuídos entre acionistas minoritários.

uma queda atrás da outra

Confiança do comércio cai 54 pontos em maio ante abril, revela FGV

Sondagem do Comércio da FGV também identificou o ambiente político como principal problema a atrapalhar o ambiente de negócios

Exile on Wall Street

Você compraria o seu passado? Ou um portfólio para qualquer maio; ou, ainda, cadê Tereza?

Todos nós sabemos que retornos passados não são garantia de retorno futuro. Um único erro e a gente pode explodir esse negócio — o que, inclusive, me dá um medo avassalador

Idas e vindas

Ibovespa fica perto da estabilidade, em linha com bolsas de NY; dólar cai a R$ 4,02

Os mercados globais começaram o dia animados, mas o otimismo logo deu lugar à cautela. O Ibovespa acompanhou esse movimento e passou a oscilar perto da estabilidade

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu
Advertisements