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Felipe Miranda
Exile on Wall Street
Felipe Miranda
É sócio-fundador e CEO da Empiricus
2018-11-23T13:58:10+00:00
Exile On Wall Street

Onde estará o grosso do dinheiro até o final do ciclo?

A trajetória dos ativos é não linear, marcada por grandes saltos aleatórios e imprevisíveis; agora, se a pergunta fosse: onde estará o grosso do dinheiro daqui até o final do ciclo? Eu apontaria as small caps

23 de novembro de 2018
13:10 - atualizado às 13:58
Notas de dinheiro
Imagem: shutterstock

"Pôncio Pilatos: 'Uma coisa é querer mudar como as pessoas vivem. Mas você quer mudar a forma como eles pensam, como eles sentem'.

Jesus: 'Tudo que estou dizendo é que a mudança vai acontecer com amor, não com mortes'.

A Última Tentação de Cristo"

Ele está meticulosa e circularmente mexendo o drink. Em tese, já adicionou o que precisava. Ali estão o Campari, o vermute e o gin. A casca de laranja e o gelo (precisamente redondo) ainda não foram acrescentados.

Mexe mais um pouco. Prova. Ainda não está perfeito. Mais uma gota de Campari. Mistura de novo, com a cabeça inclinada para baixo e os olhos fixos na bebida; uma disciplina monástica e sem qualquer pressa. O mundo para enquanto ele elabora a obra de arte.

Estou sentado no balcão, bem no canto à esquerda logo que você entra no Boca de Ouro. Não há frescura ou sofisticação. Ninguém bate foto para publicar no Instagram. As pessoas são de verdade, estão ali pela (boa) bebida – e só. Aguardo sem qualquer pressa, pacientemente. A própria espera pelo drink é um exercício em si, remete à reflexão e ao preparo interno. Uma pessoa sentada na outra ponta do balcão está me olhando.

Ele está adicionando o gelo e a casca de laranja. Bingo! Acho que está pronto. A visão periférica me aponta: a pessoa me olha uma vez mais. Estou ali apenas à espera da minha bebida. O barman caminha na minha direção. Sem querer, esbarro de novo com os olhos verdes penetrantes. Três, quatro vezes.

Não foi tão difícil

Alguém sem qualquer educação interrompe a caminhada do barman. Tenho de esperar um pouco mais. Outro olhar. Não faça isso. Eu estou de luto, desinteressado, não é por mal, me desculpe.

Pronto. A bebida chegou. A espera valeu a pena. O melhor Negroni preparado em São Paulo chega à minha garganta premiando a paciência e a convicção. Não foi tão difícil.

O quanto você está disposto a esperar para, no final, ganhar dinheiro em seus investimentos?

Talvez ávido por ofertas imperdíveis na Black Friday, esteja eufórico, no estado de mania, e queira algo de curtíssimo prazo. Um alívio passageiro ou uma distração momentânea para colocar uns reais no bolso. Eu não julgo.

Ou talvez não. A paciência já estaria dentro de você como uma virtude, com seu ambiente psíquico devidamente estável e preparado para fazê-lo persistir, mesmo diante de grandes dificuldades no meio do caminho. Você não está preocupado com a Black Friday. Você está jogando a vida da sua família naquilo.

Efeito da ancoragem

Nos próximos dias, começam a circular os relatórios de “perspectivas para os investimentos em 2019”. Desce mais um Negroni! Além de enfadonhos, desprovidos de insights, alimentados pelo efeito da ancoragem e sem que ninguém queira se comprometer muito (na Faria Lima e no Leblon, é melhor errar com todo mundo do que acertar sozinho!), não oferecem sequer coerência interna.

Ainda faltam 40 dias para acabar o ano e estamos pensando em 2019? Estou mesmo preocupado com o que vou almoçar hoje. A trajetória dos ativos é não linear, marcada por grandes saltos aleatórios e imprevisíveis. Em um mês, acontecem valorizações (e desvalorizações, claro) absurdas na Bolsa – não precisa ir muito longe: pegue as maiores altas dos últimos 30 dias e veja se é razoável jogarmos isso fora. Não faz sentido falar em segundo gol sem que tenhamos marcado o primeiro. Cada coisa na sua hora.

Não nego, porém, que haja alguma dicotomia entre ganhar dinheiro agora ou ganhar muito dinheiro lá na frente. Pragmaticamente, o que estou querendo dizer?

Quando olho para valuation, crescimento à frente e fluxos de capital no mundo, bem como tento traçar um prognóstico para os desdobramentos da economia e da política brasileiras, vejo dois grandes temas para alocação de recursos nos próximos meses: i) alongamento dos durations na renda fixa – muito interessante como os grandes ganhadores de dinheiro em câmbio e juro no Brasil, depois de muito resistir, agora começam a flertar com o juro longo; e ii) aumento da posição em Bolsa, via ETFs ou ações mais líquidas ligadas ao ciclo doméstico – há muito tempo o smart money local não se dedicava com tanto afinco a isso; os fundos de ações domésticos reduziram muito suas posições de caixa e muitos multimercados, historicamente céticos e, em certo sentido, avessos a Bolsa, começam a comprar renda variável mais fortemente.

Small caps

Agora, se a pergunta fosse: onde estará o grosso do dinheiro daqui até o final do ciclo? Eu apontaria as small caps. Essas provavelmente devem demorar mais para subir. No final, porém, quem comprar agora e tiver paciência, vai ganhar muito dinheiro com esse negócio num horizonte de três a cinco anos.

Primeiramente, por uma razão simples. Elas são betas bastante altos em relação ao mercado. Sempre assim. Ademais, quanto maior o risco, maior o retorno. Nenhuma heterodoxia aqui. Tudo em linha com o mais do que clássico Fama-French de três fatores.

Para complementar, há um completo desinteresse neste momento por ações de baixa liquidez nos mercados emergentes. Estamos anestesiados aqui por conta das questões domésticas e do rali das eleições. Mas emergentes estão simplesmente destruídos neste ano, muito “underowned” e com valuations extremamente deprimidos para os padrões históricos. Small caps de emergentes então… esquece! Essas são as verdadeiras barganhas hoje, a preços de Black Friday por conta da completa falta de apetite do gringo – ele também está de luto diante de seus próprios problemas.

Esse negócio provavelmente não vai subir agora. Mas depois de uma pernada das blue chips, o fluxo vai começar a chegar às menores. E daí prepara.

A verdade é filha do tempo.

Mercados

Mercados iniciam a sexta-feira sem tendência definida. Ponderam nova queda das commodities lá fora, com mais uma baixa para o petróleo, novas nomeações para o governo de Jair Bolsonaro (com viés liberal e privatizante; os Chicago Boys estão invadindo a nossa praia, trazendo a farofa e a galinha) e inflação novamente abaixo do esperado, com IPCA-15 apontando alta de 0,19 por cento em novembro, aquém das projeções de 0,24.

Na agenda, temos ainda IPC-S e leitura preliminar do PMI composto nos EUA. Mercados fecham mais cedo em Wall Street, o que retira um pouco da liquidez hoje.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,4 por cento, dólar sobe contra o real e juros futuros caem.

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