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Felipe Miranda
Exile on Wall Street
Felipe Miranda
É sócio-fundador e CEO da Empiricus
2019-11-27T11:00:15-03:00
Exile on Wall Street

O novo equilíbrio brasileiro ou (Paulo Guedes está certo)

Vamos falar do primeiro ponto: o dólar. Resumo: tudo absolutamente normal, em linha com o livro-texto e é bizarro que tenha se dado tanto alarde em cima de uma declaração. 

27 de novembro de 2019
10:56 - atualizado às 11:00
O ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, concede entrevista coletiva.
Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Quando George Orwell escreveu suas “Notas sobre o nacionalismo”, o contexto era bem diferente. Estávamos em outubro de 1945, cerca de um mês depois do encerramento da Segunda Guerra Mundial.

O caráter aparentemente atual do texto chega a arrepiar. A certa altura, temos algo assim, na minha péssima tradução livre: “Aqueles que reescrevem a história provavelmente acreditam com parte de suas mentes que eles efetivamente estão introjetando fatos no passado (…). Eles acreditam que sua própria versão dos fatos realmente aconteceu diante dos olhos de Deus e que têm assim justificativa para rearranjar as coisas em harmonia com ela”.

Há algo especialmente problemático com as finanças e os investimentos. O conjunto de análises, artigos, livros e estudos sobre o tema fingem-se de portadores de rigor científico quando, na verdade, costumam apenas atuar no nível do storytelling, ou seja, da construção de uma narrativa crível. A ciência está interessada naquilo que efetivamente é. Ou, nas palavras de Richard Feynman, pode ser definida como “um método para tentar responder perguntas que poderiam ser colocadas como ‘se eu fizer isso, o que vai acontecer?’”.

O storytelling apenas está interessado em construir uma história bonita, associando supostas causas e efeitos que a tornem palatável aos ouvidos do espectador. O problema com a economia, as finanças e o investimento é que eles não são muito suscetíveis ao escrutínio do “vou fazer este teste e ver o que vai acontecer”. Estamos fora do ambiente de laboratório e testes errados podem ter consequências bastante danosas — a criatividade e a invencionice da nova matriz econômica prova o argumento; o curioso teste custou-nos 16 milhões de desempregados.

Como muito bem resumiu Alberto Dines, há situações verossímeis que não são verdadeiras. E há situações verdadeiras que não são verossímeis. Uma história bonitinha e bem contada pode facilmente não corresponder à realidade. Incorremos com certa frequência em falácias da narrativa, sem qualquer apego à verdade, encontrando correlações espúrias e estabelecendo links causais onde há apenas aleatoriedade. Confundimos razão com racionalização, ciência com cientifização — e essas são coisas bem diferentes.

Por décadas no Brasil, os economistas heterodoxos, autobatizados “desenvolvimentistas”, como se a eles pertencessem exclusivamente a capacidade de promover o desenvolvimento, um assunto que, claro, não interessaria aos ortodoxos liberais, resumiram os problemas macroeconômicos do país ao juro alto e ao câmbio muito apreciado. O juro alto seria, por evidente, um esforço dos rentistas, interessados em ver sua transformação marxista e fetichista do dinheiro em mais dinheiro (D-M-D’). Já o câmbio excessivamente apreciado teria motivações menos conhecidas e óbvias — quem sabe fosse o caso de esses seres maquiavélicos deliberadamente favorecerem as importações em prol do enriquecimento das matrizes dos empresários estrangeiros, mais bem representados pelo voraz capitalismo ianque.

Bom, a taxa básica de juros brasileira foi para a mínima histórica, em linha com civilizados padrões internacionais, e o câmbio marcou recorde nominal. E o que aconteceu com nosso parque industrial? Nada. Absolutamente nada.

Mas o pior não foi o desmonte do argumento típico dos economistas heterodoxos e, em geral, associados ao discurso da esquerda. Para mim, o ponto mais grave é que essa turma, sob aplausos de uma imprensa sensacionalista e desprovida de conhecimento técnico, agora critica a política liberal de Paulo Guedes, citando a desvalorização recente do real como sinal inequívoco das diretrizes macro do nosso ministro da Economia.

A situação ganhou contornos mais marcados com as recentes declarações de Paulo Guedes. A primeira delas ao se referir à necessidade de nos acostumarmos com um dólar mais alto. E a segunda no tal “não se assustem se alguém pedir o AI-5”.

Vamos falar de câmbio

Vamos falar do primeiro ponto: o dólar. Resumo: tudo absolutamente normal, em linha com o livro-texto e é bizarro que tenha se dado tanto alarde em cima da declaração.

Destarte, lembro que o valor da moeda é basicamente o inverso da inflação. Lição mais elementar de economia monetária: reais são trocados por coisas. Se as coisas ficam mais caras, o valor do real está caindo. Ora, se a inflação no Brasil é sistematicamente superior àquela dos EUA (de fato, é), é natural esperarmos uma tendência à desvalorização do real (alta do dólar) no tempo. Ou seja, não deveria ser surpreendente convivermos com recordes nominais para o câmbio em razoável frequência.

Além disso, mudamos o equilíbrio macro brasileiro — e entendo que, em termos líquidos, para melhor. Aqui basta recorrer à chamada “interest rate parity”, ou paridade câmbio-juro. O juro de equilíbrio num determinado país com conta de capital aberta (como o Brasil) é dado pelo juro internacional, mais o prêmio de risco-Brasil e a expectativa de desvalorização cambial. De maneira mais intuitiva, como os juros aqui sempre foram muito altos, éramos um destino óbvio do “carry trade” — investidores tomavam dinheiro emprestado no exterior a juros baixos e vinham aplicar aqui a juros muito mais altos. Essa entrada de moeda estrangeira pela conta de capital valorizava nosso real. Agora, a dinâmica histórica foi interrompida, quem sabe até invertida. Com a Selic em torno de 5% ao ano, deixamos de ser destino do capital especulativo internacional, sendo, inclusive, em determinados casos, fonte de financiamento para se aplicar em outros países emergentes cujas taxas de juro são maiores.

Em reforço, com juros mais baixos e civilizados, empresas brasileiras que historicamente se endividaram no exterior podem agora fazê-lo em moeda local. Esse é outro motivo em prol de uma taxa de câmbio mais depreciada, porque não há mais captações externas e existe uma demanda por dólares para pagamento de dívidas no exterior.

Robert Mundell e seu trilema impossível já nos provaram a incapacidade de qualquer país ter conta de capital aberta, controlar juro e câmbio ao mesmo tempo. O real mais depreciado é consequência natural da excepcional conquista de juros baixos no Brasil. Claro que há efeitos negativos também. A economia é feita de trade offs e existem grupos perdedores no processo. Uma moeda fraca tem como desdobramento eventual pressão sobre a inflação e deterioração da margem dos importadores. Em contrapartida, os juros mais baixos estimulam consumo e investimento e beneficiam endividados, enquanto o dólar mais fraco ajuda nas exportações.

O equilíbrio atual me parece, em termos líquidos, bem melhor do que o anterior. Ele é absolutamente alinhado à prescrição do livro-texto e não há qualquer motivo para alarde ou surpresa nas acertadas palavras de Paulo Guedes a respeito. Ao mesmo tempo, não tomemos, como tentou fazer parte do mercado ontem, a afirmação do ministro como uma espécie de “licença para matar”, como se, diante do novo equilíbrio, o dólar pudesse subir indefinidamente, em qualquer velocidade e para qualquer nível.

Embora o regime seja de câmbio flutuante, todo banco central guarda, em maior ou menor grau, o chamado “fear of floating”, o medo de uma volatilidade excessiva na taxa de câmbio. Subidas muito rápidas, flutuações além daquelas razoáveis (em linha com os fundamentos estruturais e/ou com a movimentação de outras moedas emergentes), disfuncionalidades por falta de liquidez ou procura súbita por hedge geram quase necessariamente a intervenção do banqueiro central. Um câmbio muito volátil retira previsibilidade de exportadores, importadores e investidores, machuca quem tem dívida em dólar, inibe a entrada de capital, pois aumenta a incerteza sobre o nível do câmbio lá na frente, quando o investidor for sair.

Dizer que devemos nos acostumar com um dólar mais alto não significa dizer que aceitaremos qualquer coisa. Tudo precisa estar dentro da razoabilidade. A atitude do Banco Central ontem ao atuar duas vezes no câmbio e a declaração de Roberto Campos Neto de que manterá as intervenções caso sigam as disfuncionalidades na relação entre real e dólar estão rigorosamente em linha com essa construção e em nada confrontam o ministro Paulo Guedes. Ao contrário, conseguiram conter um pouco da desvalorização cambial e devolver um pouco da desejada razoabilidade às coisas.

E o AI-5?

Já em relação às manifestações de Paulo Guedes mencionando o AI-5, um brevíssimo comentário. Talvez tenha sido uma atitude não tão feliz citar o termo. Poderia ser evitado, em especial diante de uma imprensa pronta para fazer um escândalo a respeito e um exército das hienas do tio Scar no Parlamento ávido por aproveitar qualquer pequeno deslize para rotular o governo de ditador. Mas não há nada material ali. Guedes fazia, na verdade, um apelo à moderação, criticando a tentativa do ex-presidente Lula de inflamar as massas num momento de protestos na América Latina — o que inclusive pode ter atrasado nossa plataforma de reformas, sob o potencial risco de se trazerem manifestações populares e fortalecer o discurso da esquerda.

Qualquer um que já conversou com Paulo Guedes ou acompanha mais de perto sua trajetória sabe de sua insistência em associar o Brasil a uma sociedade aberta e a uma democracia liberal. Aqueles com cabelo branco ou, como eu, já sem cabelos talvez possam se lembrar da proximidade da turma do Pactual nos anos 1990 do investidor George Soros (o “P”, de Pactual, vem de Paulo Guedes). Soros é também um grande defensor das sociedades abertas, como um bom discípulo de Karl Popper. No final do dia, o que falta a essa gente escandalosa é um pouco de espírito científico e falseacionismo popperiano.

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