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Ivan Sant’Anna: O mercado como ele é

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Tal como o escritor argentino Jorge Luis Borges, o dramaturgo e cronista brasileiro Nelson Rodrigues era de direita. Borges detestava o peronismo; Nelson apoiou a ditadura militar.

Isso não impediu que ambos fossem idolatrados pelos intelectuais de esquerda.

O mesmo, só que no sentido contrário, aconteceu com o ficcionista colombiano Gabriel Garcia Márquez, socialista de carteirinha e grande amigo e admirador de Fidel Castro.

Para quem gosta de boa leitura, ou admira mentes privilegiadas, gênios como esses serão sempre julgados acima de vieses políticos.

De todos esses citados, e sem nenhum patriotismo, ou patriotada, para mim o melhor foi Nelson Rodrigues.

Certa ocasião, após a estreia de uma de suas peças teatrais, Nelson foi jantar com um crítico literário. Estava preocupado, com medo de que a resenha de sua peça fosse negativa.

A chance disso acontecer era zero. O tal crítico era simplesmente fanático por Rodrigues, coisa que ficou óbvia desde o início da conversa.

“Nelson, pra mim você é tão bom quanto Shakespeare.”

Umas duas horas mais tarde, ao se despedirem, o crítico entregou o jogo:

“Claro que a resenha vai ser boa. Foi uma das melhores coisas que assisti em minha vida.”

“Obrigado, amigo, mas não se esqueça de mencionar aquele negócio do Shakespeare.”

Nelson Rodrigues publicava uma crônica diária, no vespertino Última Hora. Chamava-se A vida como ela é.

Muita gente só comprava o jornal para ler o Nelson e suas histórias antológicas.

Rodrigues era às vezes repetitivo. Mas, a propósito disso, ele costumava dizer:

“As pessoas não são lembradas pelo que dizem, mas pelo que repetem.”

Guardadas as proporções, e elas são colossais, estou pensando em escrever para a Inversa uma crônica, curta como as do Nelson, que poderia ser diária ou semanal, chamada O mercado como ele é.

Misturarei ficções com casos reais, mesclarei personagens que conheci nos pregões da Bolsa e nas mesas de operação. Se a ideia for adiante, espero que o leitor goste, pois adorarei escrevê-las.

Seria, talvez, uma imitação descarada de Rodrigues, mas já o imito diariamente em tudo que redijo. Não só eu como boa parte dos escritores brasileiros, inclusive meu irmão, Sérgio Sant’Anna, laureado com três prêmios Jabutis, que se foi, levado pela Covid-19, há três meses.

Se esse projeto será, ou não, levado adiante, não depende de mim. Mas hoje vou dar uma palinha do que seria, relatando, ou inventando, algumas dessas historinhas.

“Chicão (Francisco Daniel Espiñera) era um uruguaio, que veio para o Brasil ainda criança e, já adulto, se tornou operador de pregão da Fator na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro no final dos anos 1960 e início dos 1970.

Ele tinha algumas características curiosas.

Jamais investia, ou especulava, em ações.

Detectava, com a precisão dos desapaixonados, o final de cada bull market.

A gente saía da Bolsa para um restaurante e ele logo chegava proclamando:

‘Acabou o trem da alegria!’

Dito e feito. Na abertura do dia seguinte era o momento exato de se sair das posições compradas ou até mesmo de vender a descoberto.

Chicão torcia fanaticamente pelo Flamengo, achava Garrincha melhor do que Pelé, era sambista e diretor da Mangueira e, como ninguém é perfeito, soltava balões na época das festas juninas.

Nunca mais tive contato com ele. Nem sei se está vivo ou morto. Mas guardarei para sempre duas de suas frases costumeiras:

Quando estava deprimido, dizia: ‘Estou rindo de desastre de trem.’

Nos dias alegres, declarava: ‘Estou feliz que nem pinto no lixo’.

Este último comentário foi dito pelo puxador de samba Jamelão, da Estação Primeira da Mangueira, quando o presidente americano Bill Clinton visitou a quadra de samba da escola, em 1997.

‘Tava feliz feito pinto no lixo’, assim comentou o cantor, a respeito de Clinton.

Não sei se foi Chicão, Jamelão ou outra figura dos subúrbios cariocas que inventou a expressão. O certo é que ela é dita até hoje. Principalmente após o episódio Jamelão/Clinton.”

***

“Esta história é totalmente verídica, embora os nomes estejam substituídos na narrativa.

Na época das Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional, havia as ORTNs com correção monetária e as com correção cambial.

Sempre que o Banco Central fazia uma maxidesvalorização da moeda brasileira, cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, novo cruzado, etc., insiders era o que não faltavam. Certos traders recebiam dicas de Brasília com os percentuais exatos da alteração.

Um desses caras (vamos chamá-lo de João das Couves), dono da Amalgamated DTVM, ficou sabendo de uma maxi por intermédio de uma fonte de confiança.

Pois bem, alavancou seu capital mais reservas 30 vezes, comprando ORTNs cambiais.

A maxi saiu no início da noite de uma sexta-feira, após o fechamento do mercado, batendo em nível de centésimo de centavo com a dica de Brasília.

Resultado disso, a Amalgamated ganhou uma fortuna.

Que fez João das Couves?

Na segunda ele chamou seus funcionários à sua sala, desde o chefe da mesa de operações até a garota do café. Um de cada vez.

‘Qual é seu grande sonho na vida?’

‘Ter meu próprio apartamento.’, disse um.

‘Dar uma casa pra minha mãe’, revelou outra.

‘Fazer uma viagem à Disney com a família’, falou um terceiro.

Carro do ano, cruzeiro de navio, festa de casamento da filha, os desejos foram se sucedendo.

João das Couves realizou todos.”

***

Rafael Abad Sobrinho, o Rafa, era meu companheiro de mesa no open da distribuidora Tecnicorp.

Forte como um touro, faixa preta de judô, campeão de queda de braço, mas um doce de pessoa. Ah, também cantava e tocava guitarra numa banda de rock.

No escritório, uma de suas especialidades era criar programas os mais complexos em máquinas HP 12C. Levava semanas bolando cada um deles.

Certa sexta-feira, o Jaiminho (Jaime Henrique Teixeira Duarte) adquiriu uma completa aparelhagem de som, que naquela época ocupava grande volume: caixas e mais caixas.

Pois bem, na hora do almoço Rafa permaneceu no escritório, abriu todas as caixas, tirou os aparelhos e encheu os espaços vazios de bugigangas, jornais e revistas velhos, aparelhos telefônicos escangalhados, pedaços de isopor. Fechou tudo direitinho.

Jaiminho só descobriu a molecagem quando chegou em casa, louco para estrear o som.

Teve volta.

Na segunda, Jaime chegou mais cedo à Tecnicorp e deletou todos os programas da calculadora de Rafael.

Detalhe: nessa época a gente também trabalhava. Quando sobrava tempo.”

Um forte abraço para vocês, caro assinante, e um ótimo fim de semana.

Aproveito para indicar a leitura do meu último livro lançado “30 Lições de Mercado“. Você pode adquirir neste link o livro que vai mudar seu pensamento em relação aos investimentos.

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