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Projeto de longo prazo

Governo deveria apresentar agenda de reformas para 2 anos, diz Pastore, ex-presidente do BC

Affonso Pastore defende que o governo apresente uma agenda de reformas capaz de reduzir as incertezas em torno da política econômica

20 de maio de 2019
18:53 - atualizado às 18:55
Economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central
Affonso Celso Pastore - Imagem: Wilton Júnior/Estadão Conteúdo

O economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC), criticou nesta segunda-feira, 20, a falta de uma estratégia do governo para enfrentar a estagnação econômica, classificada por ele como "depressão" em relatório divulgado recentemente.

Para Pastore, o governo deveria apresentar uma agenda de reformas para os próximos dois anos, capaz de reduzir as incertezas em torno da política econômica.

"O que eu gostaria de ver era que o governo, em vez de discutir se o Olavo tem razão, se quem tem razão é o 01 ou o 02, mostrasse a estratégia para tirar o País dessa situação", afirmou Pastore, em seminário promovido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) e pelo jornal Valor Econômico, no Rio, se referindo ao escritor Olavo de Carvalho e aos filhos do presidente Jair Bolsonaro.

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Para Pastore, se os economistas ficarem "discutindo se dá pra cortar 0,25 ponto da Selic ou não, vamos ficar patinando no mesmo lugar".

PIBinho no radar

Pastore também fez a avaliação de que a economia brasileira crescerá em torno de 1,0% neste ano, com uma probabilidade maior de ficar abaixo disso.

Chamando atenção para a lentidão da recuperação da economia, Pastore ressaltou que a taxa básica de juros (Selic, hoje em 6,5% ao ano) está em nível de produzir estímulos e até pode ser baixada, mas apenas com "respaldo fiscal".

"Estamos vendo uma recuperação da renda per capita a passo de cágado manco andando de muleta", afirmou Pastore, em palestra durante seminário promovido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) e pelo jornal Valor Econômico, no Rio.

No quadro traçado por Pastore, a economia seguirá se arrastando nesse ritmo, porque não há fontes de impulso para a demanda agregada. Esse impulso não pode vir dos gastos do governo, nem do consumo das famílias, nem das exportações e, mesmo no caso dos investimentos em infraestrutura, o impulso só viria de 2021. "Nem os investimentos são uma força indutora da recuperação. O melhor quadro é uma economia que vai se arrastar na recuperação", afirmou Pastore.

Nesse quadro, o ex-presidente do BC recomendou cautela na discussão sobre novas rodadas de redução na Selic. Em primeiro lugar, Pastore mostrou quatro estimativas diferentes sobre a taxa de juro neutro da economia, todas na casa de 4,0% ao ano e destacou que a taxa de juro real ex-ante em um ano hoje está entre 2,5% e 2,7% ao ano.

"Está abaixo da taxa neutra, então é estimulante. Mas se você tem uma economia que não reage, pode reduzir", disse Pastore.

Para o economista, uma eventual redução deve levar em conta dois fatores. Um é o risco externo. O outro, mais importante, é fazer reduções num contexto em que o BC não tenha a argumentação a favor de novos cortes não tenha credibilidade.

"Com bom respaldo fiscal, não vejo problema de usar uma dose monetária adicional", disse Pastore, citando que o BC poderia fazer dois cortes de 0,25 ponto porcentual caso uma boa reforma da Previdência seja aprovada. "Agora, se for pro outro lado, o mais provável é que tenha inclinação da curva (de juros). Se tiver, em vez de produzir estímulo, vai gerar desestímulo", completou o ex-presidente do BC.

*Com Estadão Conteúdo.

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