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Angela Bittencourt
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Angela Bittencourt
é jornalista e editora da Empiricus
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A digital de Paulo Guedes no BC

Além de terem trabalhado juntos, ambos têm afinidades pessoais. No início de janeiro, Campos Neto foi nomeado assessor no gabinete do ministro da Economia.

14 de março de 2019
17:36 - atualizado às 17:45
O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o ex-presidente do BC Ilan Goldfajn durante cerimônia de transmissão de cargo. - Imagem: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Ilan Goldfajn e Roberto Campos Neto foram econômicos na transmissão de cargo na Presidência do Banco Central, na quarta-feira (13). Ilan passou o bastão em um discurso de oito páginas e Campos Neto recebeu com um discurso de nove. Foram poucas palavras para discursos formais, mas densas em conteúdo. Ilan citou nominalmente cada colaborador e agradeceu a parceria a todos e a cada um. Campos Neto deu uma sinalização cirúrgica do que pretende em sua gestão. Ambos destacaram o redirecionamento da política econômica a partir de 2016 ­– para melhor, claro.

Ilan encerrou uma gestão histórica de 30 meses à frente do BC, deixando um legado consistente. Nele destacam-se, contudo, a restauração da credibilidade da instituição e suas políticas e o regime de metas para a inflação, que ele mesmo ajudou a implantar no Brasil há duas décadas.

Campos Neto deu início a uma gestão de 48 meses. O Banco Central ainda não tem autonomia formal. Portanto, o mandato do seu presidente deve acompanhar o mandato do presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL). Neto do lendário Roberto Campos, o novo presidente do BC chega com a chancela do ministro Paulo Guedes (Economia), de quem é muito próximo.

Além de terem trabalhado juntos, ambos têm afinidades pessoais. No início de janeiro, Campos Neto foi nomeado assessor no gabinete do ministro da Economia. Nos últimos muitos anos, indicados ao comando do BC assumiram funções dentro da instituição, enquanto aguardavam a aprovação de seus nomes pelo Senado Federal.

Ao afirmar, na cerimônia de posse, que o BC, com o esforço de todos, “contribuirá para o desenho de um país melhor, fundado no livre mercado, onde se destaque cada vez mais o Brasil e menos Brasília”, Campos Neto renovou o seu compromisso com o ministro e com o presidente da República.

As prioridades de Campos Neto

Ele listou seis objetivos a perseguir em sua gestão: manter a inflação baixa e controlada e continuar aprimorando mecanismos de comunicação; manter o sistema financeiro sólido e eficiente, com um mercado de capitais fortalecido; ter autonomia do BC registrada na lei; reduzir o custo de intermediação financeira; tornar o mercado mais aberto para os estrangeiros, com uma eventual moeda conversível que sirva de referência para a região; e reduzir o papel do governo, hoje um grande ator do sistema financeiro.

Os últimos dois objetivos devem aproximar, ainda mais, a autoridade monetária do Ministério da Economia ao longo do atual governo, inclusive, porque tornar o real uma moeda conversível e reduzir o papel do governo no sistema financeiro exigem a cooperação de segmentos da área econômica que vão além do BC.

Tornar a moeda conversível tem implicações comerciais consideráveis. O Brasil tem uma corrente comercial superior a 400 bilhões de dólares em 12 meses, importante conta financeira e intrincada legislação cambial, sem falar na tributação. Reduzir a presença do governo no sistema financeiro é outro objetivo de considerável abrangência. O Tesouro responde por uma dívida mobiliária interna de quase 3,7 trilhões de reais; o BC movimenta, adicionalmente, cerca de 1,2 trilhão de reais em títulos do próprio Tesouro em operações de curto prazo; e o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal são as maiores instituições financeiras do país.

O novo presidente do BC elogiou o trabalho do antecessor e destacou a importância da redução da Selic a nível historicamente baixo: 6,5 por cento ao ano. A transmissão dessa referência aos juros bancários foi também elogiada.

Contudo, Campos Neto marcou um gol de placa ao lembrar que a Selic (em sua mínima histórica por cerca de um ano) permite ao governo perceber melhor algumas distorções e propor políticas que melhorem a eficiência dos mercados. E citou, como exemplo dessas distorções, os programas de empréstimos subsidiados, principalmente por meio do BNDES.

“A evidência empírica sugere que as empresas com acesso a esses recursos não aumentaram seus investimentos. Além disso, os pagamentos antecipados por parte das empresas de empréstimos de longo prazo obtidos junto ao BNDES ressaltam a natureza de tesouraria de parte dessas operações, que deixaram de ser atrativas com a redução do diferencial entre a TJLP (Taxa de Juro de Longo Prazo) e a Selic”, afirmou.

Em miúdos, ele mostrou que o governo identifica a ação oportunista desse tipo de operação que corresponde a uma arbitragem da taxa de juros. Não à toa, o novo presidente do BC é um reconhecido especialista em mercados futuros.

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