Solteiro por escolha: por que a solteirice virou estilo de vida, segundo Maria Homem
Pesquisa do happn mostra que 79% dos solteiros definem seu status como uma decisão consciente; para a psicanalista, o relacionamento deixou de ser obrigação e passou a exigir novos pactos

“Se relacionar é algo complexo”, explica a psicanalista Maria Homem. “Conhecer o outro dá trabalho. Mexe com a intimidade, implica auto e heteroconhecimento. O outro atrita e revela sobre a gente. Pode ser muito bom, muito rico, muito incrível... ou o inferno sobre a terra”.
Neste Dia dos Namorados, a fala da pesquisadora e professora de psicologia da FAAP ajuda a explicar por que estar solteiro deixou de ser, para muita gente, sinônimo de fracasso. Pelo contrário: hoje, a “solteirice” passa a ser entendida como escolha — e, em alguns casos, estilo de vida.
É o que mostra uma pesquisa recente do aplicativo de relacionamentos happn. Segundo o levantamento, 79% dos solteiros definem seu status como uma escolha consciente.
Embora a maioria permaneça aberta ao amor (60% dizem que ainda querem se relacionar), os dados apontam para uma mudança importante: os solteiros já não estão dispostos a aceitar qualquer coisa.
"Rejeição” ao amor?
Para a psicanalista Maria Homem, indivíduo parou de idealizar a relação amorosa como condição obrigatória de realização pessoal. Dessa forma, os solteiros passam a se perguntar se aquela relação de fato torna a vida mais leve — ou se pesa mais do que a própria solitude.
“No passado, não estar em uma relação nos colocava em um lugar de castração, de falência, de fracasso - sobretudo para a mulher, que precisava estar em um lugar de complementaridade com um homem para ter alguma dignidade. Agora, essa narrativa não cola mais, e podemos nos perguntar: ‘Quem sou eu? O que eu gosto? O que me realiza? Eu gosto de viver com alguém? De partilhar meu espaço? É como se fosse uma certa vitória do paradigma individualista”, explicou a pesquisadora ao Seu Dinheiro Lifestyle.
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Os dados apontam nessa mesma direção
De acordo com a pesquisa do happn, 44% dos usuários veem a solteirice como um estilo de vida empoderado e realizador, sentimento que se fortalece ainda mais com a idade. O mesmo percentual afirma que só entraria em um relacionamento se ele tornasse suas vidas “mais leves e livres de pressão”.
A rejeição ao relacionamento como obrigação não significa, necessariamente, uma rejeição ao amor - mas sim, que os critérios mudaram. Se o vínculo pesa mais do que soma, a solteirice pode parecer não apenas aceitável, mas desejável.
“Na prática, há muitas relações que são chatas, enganadoras, traidoras, tóxicas. Carregar isso pode ser mais pesado do que ter a sua vida, a sua casa, os seus amigos, os seus prazeres”, afirma Maria Homem.
Esse movimento, no entanto, não se trata de uma tendência de comportamento ou de uma mudança geracional isolada. Segundo a professora, ele faz parte de uma transformação histórica na forma como a sociedade enxerga o amor, o casamento, a autonomia individual e os vínculos.
Afinal, quando inflamos o ideal romântico?
Nem sempre o relacionamento foi visto como um projeto afetivo. Maria Homem lembra que, por milênios, o casamento esteve ligado à organização da vida social. Em vez de nascer da escolha amorosa, ele servia à formação de famílias, à reprodução e à criação de alianças entre clãs, classes e grupos de interesse.
“A gente começa a romper esse paradigma na modernidade, com a invenção do sujeito individual, consciente, moderno, que tem sua vontade, autoanálise, livre-arbítrio e uma ética liberal. O liberalismo não é só econômico e nem político: ele também é subjetivo. É o que Kant depois chamou de liberdade e autonomia no século 18. A gente vai pensar o que quer fazer da própria vida de acordo com o que acha interessante para si mesmo.”
Nesse sentido, o amor romântico nasce junto da valorização da autonomia individual. A questão é que, ao longo do tempo, começamos a hiperidealizar esse elo.
“Com a invenção das culturas de massa, com os meios de comunicação — não só a imprensa, mas sobretudo os folhetins dos séculos XVIII e XIX, e depois o cinema —, a gente tem uma romantização do vínculo do casamento e do namoro. Há uma fetichização desse laço. E aí colocamos todos os pedaços da nossa vida como tendo que ser satisfeitos e preenchidos pelo objeto amoroso.”

Uma exigência impossível
Se antes o casamento respondia a uma necessidade social, o amor romântico passou a carregar uma promessa maior: a de suprir todas as expectativas do outro.
“Tem que ter um sexo incrível, uma troca espiritual e intelectual maravilhosa, ser um bom pai ou uma boa mãe de família. E hoje, no século 21, temos um pedaço a mais disso: a aura imagética, documentada, fotografada, filmada, para servir como produto que apresentamos nos nossos perfis”, explica a psicanalista.
Não por acaso, a busca pela perfeição aparece como um dos maiores obstáculos para iniciar um relacionamento, de acordo com o levantamento do happn.
E embora hoje seja mais fácil conhecer pessoas com os aplicativos de namoro, os solteiros parecem mais cansados diante das possibilidades.
Dados da Forbes Health mostram que 78% dos usuários de aplicativos de relacionamento já se sentiram emocionalmente esgotados nessas plataformas. Entre os motivos estão a dificuldade de estabelecer uma conexão real, a decepção com outras pessoas, a rejeição, as conversas repetitivas com diferentes matches e o hábito constante de deslizar perfis.
Para Maria Homem, isso acontece porque o vínculo real continua exigindo algo que nenhum aplicativo resolve: tempo, atrito, intimidade, negociação e disposição para se relacionar.
Nesse contexto, a pergunta deixa de ser apenas se alguém quer ou não estar em uma relação. Ela passa a ser: que tipo de vínculo ainda faz sentido para a vida que se deseja construir?
Para a psicanalista, o ponto central é justamente esse: os pactos deixam de depender de uma norma social única e passam a ser construídos a partir dos acordos possíveis entre cada um.
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