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Ícone do mercado livreiro de luxo que fechou as portas em 2015 por ser “insustentável”, a editora renasceu em 2025 tentando equilibrar o DNA de excelência com a sobriedade financeira
Instalada em um escritório no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, a Cosac Edições marca o retorno de Charles Cosac ao mercado editorial em 2025. Com uma equipe enxuta e uma estrutura horizontal, a editora busca equilibrar a excelência da antiga Cosac Naify com um modelo de negócios financeiramente sustentável. Por DNA, traz um catálogo que mescla clássicos de arte a temas contemporâneos da ficção.
A abertura marca a sequência de uma história interrompida em 2015. A Cosac Naify foi um divisor de águas no mercado editorial brasileiro. Capitaneada pelo estudioso de História da Arte e herdeiro de uma companhia mineradora, Charles Cosac, a editora quis fazer livros agradáveis. O cuidado com forma, ali, era tão elevado quanto o apreço pelo conteúdo.
De 1996 até o encerramento, o selo editou mais de 1.600 títulos, mas sempre operou no vermelho. No fim, somava cerca de R$ 100 milhões em prejuízos acumulados em duas décadas, consequência de um modelo de negócios insustentável.
Nesse meio tempo, outras editoras – muitas vezes formadas por ex-funcionários da Cosac Naify – ocuparam parte do nicho antes ocupado pela editora. No entanto, a Cosac Naify continuou sendo o símbolo de um ideal inalcançável e sinônimo de livros de excelência.
Com a retomada, em 2025, da iniciativa agora rebatizada como Cosac Edições, e a grande pergunta é: a Cosac voltou?
Bem, não exatamente.
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De seu apartamento, um duplex no bairro de Higienópolis, em São Paulo, é o próprio Charles Cosac que responde à questão do Seu Dinheiro.
“Tem muito a ver com a Cosac Naify, existe alguma continuidade, mas é algo novo”, diz. “De fato, não é a mesma editora, isso vai ficar claro com alguns títulos que serão lançados esse ano.”

Além da mudança de nome, a editora agora conta com um projeto mais enxuto e sustentável. Muito distante, portanto, dos 100 funcionários e do laboratório de design que a antiga casa tinha:
“Houve muito abuso no departamento de design, que era um verdadeiro laboratório, houve um esbanjamento”, reflete Cosac.
Da antiga estrutura, o editor recordou ainda as oportunidades comerciais perdidas, então, em função da rigidez do projeto editorial:
“A Cosac Naify sempre perdeu dinheiro, mas existia um desejo de fazer coisas bem feitas e acabadas. Eu teria feito muito dinheiro se tivesse aceitado fazer o catálogo da Havaianas, mas era incompatível com o catálogo da Cosac Naify, seria uma aberração”, relembra. “A Louis Vuitton queria que a fizéssemos papelaria deles, declinei. Veio o livro do Copacabana Palace, também declinei.”
Até janeiro de 2026, os trabalhos da Cosac não tinham nem espaço físico. Encontros eram feitos de maneira remota e reuniões, na casa de Charles. A mudança oficial para o novo escritório, no bairro Santa Cecília, aconteceu no último mês.
A única pessoa trabalhando de lá desde dezembro era a gerente editorial Raquel Toledo, que reconhece: “esse espaço é importante porque cria esse senso de equipe”.

A equipe em questão hoje é composta por menos de dez pessoas. Nela, há desde funcionários da antiga editora até jovens recém-formados nos cursos de Letras e Design da USP. A estrutura é supostamente horizontal, o que fomenta o diálogo no processo editorial.
“Charles é muito acessível e nunca impõe a vontade dele. Ele sempre quer saber o que nós achamos de um projeto”, conta Raquel.
O alinhamento é fundamental para cumprir um cronograma ousado, que prevê a publicação de três livros por mês. Ainda assim, funciona para o Raquel acredita ser o mais importante nessa retomada: trazer um pouco frescor.

“A gente não pode perder o nosso DNA. Então, estamos construindo um catálogo com clássicos, mas também queremos aproveitar para trazer gente que está produzindo agora, com temas atuais na ficção.”
Editorialmente, a casa ainda está definindo sua nova identidade. “Seguimos algumas linhas editoriais que já vieram desse primeiro ano. Continuamos fortes com livros de arte, trazendo também muitos livros de teoria de arte. Seguimos também com os livros de cinema e teatro, como a coleção Pasolini. A área de ficção é o que ainda está mais fresco”, conta Raquel.
Charles, por sua vez, está muito interessado atualmente no movimento das surrealistas mexicanas. Como descendente de sírios, porém, ele também se preocupa com o os conflitos em Gaza, que poderão aparecer em breve no catálogo da Cosac.
“Estou na minha fase de editar livros antissionistas. E não é antissemitismo, porque todos nós árabes também somos semitas. O mundo precisa pensar no que está acontecendo.”
Equilibrar o legado do nome com uma renovação necessária é parte do desafio que a Cosac encara nessa retomada. Diferente do passado, contudo, não existe vácuo no mercado. Desde 2015, outras marcas ocuparam o espaço que antes era da Cosac Naify. Parte do acervo antigo foi para outras editoras, como Ubu e Companhia das Letras.
Ainda assim, grande parte dos 1.600 livros publicados continua nas mãos da nova casa e pode ser republicada. É o caso de clássicos como Fábulas Completas de Esopo (R$ 125), ou de Decameronde Boccaccio (R$ 98).
Para Raquel, ao mesmo tempo que é preciso atender as expectativas dos leitores, o novo projeto precisa encontrar um lugar próprio.
“A Cosac Naify criou um consumidor muito atento ao projeto gráfico, então é preciso cuidar do nosso leitor porque ele sente saudades da Cosac Naify, mas precisa aceitar que não somos a Cosac Naify. Não podemos dar as costas para o nosso passado e nem só viver dele. É preciso encontrar espaço novo que leve o passado em consideração.”
Um dos maiores desafios na nova casa é a sustentabilidade. Agora a editora tem um quadro societário maior e não pode perder dinheiro. O novo modelo, entretanto, impõe restrições criativas e de qualidade. Desafiadoras para a equipe, mas francamente difíceis para Charles, que assume especial desgosto em não imprimir livros em capa dura:
“Tive uma crise de choro quando recebi a coleção Crioulas [uma enciclopédia de assuntos variados do Brasil].”
Mas o editor não virou a página. A vontade de fazer edições belas segue em seu horizonte. Em meio à decoração inspirada no filme Gritos e Sussurros (Ingmar Bergman, 1972), Charles confessa que, assim que receber sua herança, pretende abandonar o formato de brochura e usar o dinheiro para subsidiar o padrão de luxo da antiga editora.
“Eu, tão logo receba a minha herança, vou fazer igualzinho era na Cosac Naify. Você acha que eu vou fazer livros de brochura?”
Sem uma linha editorial cristalizada, a Cosac Edições cresce a cada dia, e adaptando-se aos desafios de um tempo novo. Para Raquel, “a ideia é crescer devagar, construir um catálogo consistente, e dosar livros de cauda-longa com livros que vendem mais”, diz. “Como qualquer editora, é um projeto de longo prazo.”
Sem recusar crescimento, Charles mira em um futuro mais orgânico, distante da dureza das planilhas e das certezas corporativas. “[A Cosac Edições] não tem uma acepção definida, não tem metas. Ela pode ter objetivos, mas não necessariamente mira um público específico”, explica. “A editora começa e termina na perimetria de meu corpo, isso não é onisciência.”
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