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Ao Seu Dinheiro, Glauber Mota afirma que o modelo da fintech não depende do crédito para crescer e aposta na escala global e em serviços financeiros para disputar espaço no Brasil
A carteira de um brasileiro acostumado com bancos digitais é um pequeno arco-íris. O roxinho, o amarelinho, o pretinho — cada cartão representa um aplicativo diferente tentando conquistar espaço no bolso do cliente. Agora, a Revolut, quer mudar as regras desse jogo e se tornar a “conta óbvia” por aqui.
Em vez de competir dentro dessa paleta de fintechs e incumbentes, a empresa britânica aposta que o cliente vai passar a olhar para o custo real de usar o dinheiro.
“Não precisa ficar pensando no verdinho, no amarelinho, no roxinho ou no laranjinha”, disse o CEO da empresa no Brasil, Glauber Mota, em entrevista ao Seu Dinheiro. “A ideia é que o cliente veja a Revolut como a melhor opção para qualquer transação, no Brasil ou no exterior.”
Para tentar ganhar espaço em um dos mercados financeiros mais competitivos do mundo — dominado por gigantes como Nubank e Banco Inter —, a fintech britânica decidiu elevar o tom da disputa.
O pacote mais recente inclui câmbio sem spread, IOF zero em determinadas operações, rendimento atrelado ao CDI e novos cartões premium.
A ambição é transformar o aplicativo em algo mais próximo de uma conta global para o brasileiro — capaz de concentrar desde pagamentos do dia a dia em reais até transações internacionais, investimentos no exterior e benefícios de lifestyle em um único ambiente.
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“Queremos que seja um no-brainer”, afirmou Mota. “Se o cliente quiser transacionar no Brasil ou fora, não precisa pensar muito. A Revolut precisa ser a opção clara.”
Até agora, uma parcela relevante dos clientes brasileiros utilizava a Revolut principalmente para operações fora do país. Afinal, se há um ponto em que a fintech acredita ter vantagem competitiva no Brasil, ele está nas transações internacionais.
Agora, com o câmbio com spread zero dentro de determinados limites, a empresa espera sair na frente de boa parte da concorrência.
Nos últimos anos, diferentes modelos tentaram competir nesse espaço. O CEO argumenta que muitos rivais usam estratégias de marketing que anunciam a devolução do imposto, mas compensam a conta com spreads elevados de até 6%.
Outras empresas usaram stablecoins para baratear operações internacionais e evitar o imposto sobre operações financeiras.
Com mudanças regulatórias recentes, porém, esses modelos também passaram a enfrentar a incidência de IOF — o que, na avaliação do CEO da Revolut, tende a reduzir a vantagem competitiva.
“Esses modelos vão ter que se reinventar. Muitos eram mono produto. Se baixarem demais o spread, ficam menos competitivos”, disse.
Agora, a nova fase da Revolut no Brasil busca ampliar também a presença no cotidiano o brasileiro. “A pessoa não viaja todo dia. O dia a dia dela está no Brasil, em reais. Precisávamos melhorar essa plataforma também”, afirmou.
Entre as novidades estão aprimoramentos nos cartões e no programa de fidelidade, o RevPoints, que permite acumular pontos tanto no crédito quanto no débito. A empresa também lançou o plano Ultra, que reúne benefícios premium e maior limite para operações cambiais.
Embora boa parte da concorrência esteja mirando a expansão da base de clientes endinheirados, a Revolut quer atender desde o cliente que busca uma conta gratuita até usuários dispostos a pagar por serviços mais sofisticados.
“Não fazemos um produto só para alta ou baixa renda. A ideia é que seja massificado”, disse Mota. “O cliente de milhões e o cliente com menos recursos têm acesso à mesma prateleira de produtos. A seletividade não depende da renda.”
Para ele, o modelo de negócio de rivais que focam apenas na alta renda por causa da inadimplência e rentabilidade é muito dependente da oferta de crédito.
Em sua visão, o crédito servirá para ganhar principalidade, porque o brasileiro está habituado ao fluxo do cartão, mas a saúde financeira da empresa continuará vindo da escala global e da eficiência dos serviços.
“Nosso modelo já nasce ancorado no serviço. Temos pouco crédito por enquanto e não dependemos dele para o nosso resultado. É uma opcionalidade, um upside.”
Segundo o executivo, isso permite que a empresa trabalhe com margens e custos controlados através de contratos globais.
Por isso, a fintech pretende expandir gradualmente sua operação de cartão de crédito no Brasil, mas de forma cautelosa para evitar crescimento desordenado ou aumento abrupto da inadimplência.
Outros produtos — como crédito pessoal ou imobiliário — permanecem no radar para o futuro.
O crédito consignado, bastante relevante no mercado brasileiro, também não está no pipeline de curto prazo, disse o CEO.
Embora Mota sonhe em se tornar a “escolha óbvia” de conta para os brasileiros, a ambição ainda é de longo prazo, especialmente devido à escala dos principais rivais no país.
É por isso que a estratégia da Revolut no Brasil não passa necessariamente por substituir o banco principal do cliente.
"Não tenho nenhuma pressa para me tornar o primeiro e único banco do cliente, mas tenho muita vontade de me tornar mais um dentro da carteira dele", resume.
A consequência natural, segundo ele, é conquistar aos poucos essa principalidade conforme o cliente use a conta e experimente os benefícios.
Segundo Mota, a lógica ganha força com o avanço do Open Finance, que facilita a portabilidade de dados e a integração entre diferentes instituições.
Na visão do executivo, isso abre espaço para que os consumidores escolham diferentes bancos dependendo de cada necessidade.
A aposta de Mota é que, no dia em que o investidor brasileiro fizer a conta do custo real de seu dinheiro, a "guerra das cores" terá um vencedor técnico.
O objetivo da Revolut é ganhar relevância justamente nos momentos em que o cliente busca serviços como câmbio internacional, investimentos ou benefícios mais sofisticados.
No longo prazo, a ambição da Revolut vai além de ser apenas mais uma fintech no país. A empresa quer se tornar um banco completo em mais de 100 países, algo que já acontece em mais de 30 mercados.
No Brasil, a companhia opera atualmente como Sociedade de Crédito Direto (SCD), um modelo regulatório mais enxuto — que o próprio Mota descreve como um “banco light”.
A intenção, no entanto, é avançar gradualmente para uma licença de banco plena no Banco Central.
“Temos planos para uma licença bancária completa, mas respeitando o ritmo do regulador. Não há pressa”, disse Mota.
Globalmente, a Revolut já ultrapassa 70 milhões de clientes e cresce cerca de 1,3 milhão de usuários por mês. Ainda assim, o CEO acredita que a empresa está apenas no começo da expansão.
“O Brasil é um mercado gigantesco e extremamente digital. Estamos apenas arranhando a superfície”, disse o executivo.
Porém, parte desse potencial ainda depende de um maior reconhecimento da marca no país.
Mota admite que a Revolut investiu relativamente pouco em marketing até agora quando comparada aos concorrentes, que frequentemente recorrem a grandes campanhas publicitárias e celebridades.
“Acredito que o Brasil tem potencial para números muito maiores se tornarmos a marca mais conhecida”, afirmou.
Além das funcionalidades financeiras, a Revolut também quer disputar espaço em outro campo onde bancos e fintechs têm investido pesado: o das experiências e benefícios de lifestyle.
A parceria global com a Formula 1 faz parte dessa estratégia. A empresa pretende oferecer experiências exclusivas para clientes, que podem incluir acesso facilitado a ingressos, produtos oficiais e conteúdos dentro do aplicativo.
A fintech já anunciou, por exemplo, a criação de uma loja exclusiva de produtos da Fórmula 1 dentro do aplicativo para os clientes, que ainda está em projeto para o Brasil, além de um cartão especial de titânio inspirado no esporte.
A parceria também tem impacto no segmento corporativo. Segundo o CEO, a equipe Audi F1 Team utilizará o Revolut Business como banco principal para suas operações.
“O dia a dia de pagamentos da equipe será feito pela Revolut”, afirmou.
Globalmente, o produto empresarial já responde por cerca de 25% do resultado da companhia, e o plano é trazer essa operação para o Brasil.
De acordo com a empresa, a gestão de Reynaldo Passanezi Filho, que deixa o cargo, foi marcada por um ciclo de crescimento da companhia, avanços em eficiência operacional e investimentos em níveis recordes
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