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Fundo vê risco de pressão persistente nos preços e alerta para impacto nas expectativas; mercado brasileiro já revisa IPCA para cima
A guerra no Oriente Médio não trouxe apenas um novo choque de oferta à economia global — ela também reacendeu um dos principais temores dos bancos centrais: a volta da inflação persistente.
Segundo artigo publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) nesta segunda-feira (30), o conflito tende a pressionar preços ao redor do mundo, principalmente por meio do encarecimento da energia e dos alimentos.
E o risco vai além da inflação atual: envolve também a possibilidade de desancoragem das expectativas, o que tornaria o cenário ainda mais complexo.
“O mundo enfrenta mais um choque”, afirma o FMI, destacando que o conflito “está obscurecendo as perspectivas de muitas economias que haviam acabado de mostrar sinais de uma recuperação sustentada de crises anteriores”.
Segundo o FMI, o principal vetor inflacionário vem da energia. A disrupção nas rotas estratégicas do Oriente Médio elevou os preços de petróleo e gás, com impacto direto sobre custos de transporte, produção e consumo.
“Com o tempo, o aumento dos custos de transporte e de insumos acaba se refletindo nos preços de bens manufaturados e serviços”, diz a instituição.
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O impacto sobre alimentos é um dos mais relevantes. A interrupção no fornecimento de fertilizantes — com cerca de um terço passando pelo Estreito de Ormuz — ameaça a produção agrícola global e adiciona pressão extra sobre os preços.
O fundo alerta que “se os preços elevados da energia e dos alimentos persistirem, alimentarão a inflação mundial”.
O comportamento das expectativas de inflação é visto como o ponto mais sensível.
“Para muitos países que haviam acabado de aproximar a inflação da meta, isso representa o risco de um novo período de pressões incômodas sobre os preços”, diz o artigo.
O problema é que, uma vez contaminadas, as expectativas tornam o combate à inflação mais custoso.
“Se as pessoas e as empresas […] acreditarem que a inflação permanecerá alta por mais tempo, poderão incorporar essa expectativa nos salários e nos preços”, afirma o fundo. Na prática, isso cria um ciclo mais persistente, exigindo políticas monetárias mais duras.
O alerta do FMI é direto: “a guerra aumenta não apenas a inflação atual, mas também o risco de as expectativas se tornarem menos firmes”.
Diante desse cenário, o espaço para cortes de juros, que começava a aparecer em diversas economias, pode ficar mais limitado.
No Brasil, o choque externo já começa a contaminar as expectativas. O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira pelo Banco Central mostra uma nova deterioração nas projeções para a inflação.
A estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano subiu de 4,17% para 4,31% — o terceiro avanço consecutivo.
O movimento não ficou restrito ao curto prazo. As revisões também atingiram os anos seguintes, ainda que de forma mais moderada:
“Esperamos que as expectativas de inflação se deteriorem ainda mais nas próximas semanas, diante do forte choque nos preços do petróleo, e que comecem também a afetar 2027”, diz o Goldman Sachs em relatório.
Apesar da piora no cenário inflacionário, o mercado ainda não revisou a trajetória esperada para os juros no Brasil.
No último Focus, as projeções para a taxa Selic permaneceram inalteradas, indicando que os analistas seguem apostando em um ciclo de cortes à frente. Para o fim de 2026, a taxa básica é estimada em 12,50%, abaixo dos atuais 14,75% ao ano.
O mesmo padrão se repete nos horizontes mais longos. A projeção para o encerramento de 2027 foi mantida em 10,50%, enquanto, para 2028, a expectativa segue em 10% ao ano.
“As últimas comunicações do Copom sugerem que o ciclo de cortes da Selic continuará, mas o ritmo dependerá da evolução do conflito no Oriente Médio”, diz o Daycoval em relatório.
Por enquanto, o banco manteve sua projeção de uma redução de 0,5 ponto percentual (pp) na Selic, para 14,25%, na próxima reunião.
“No nosso cenário, os juros devem encerrar o ano em 12,5%, mas reconhecemos que os impactos da guerra podem diminuir o espaço para cortes”, observam os analistas.
Nessa matéria, o Seu Dinheiro te explica o que pode acontecer com a Selic daqui para frente e em quais cenários os juros podem voltar a subir. Confira!
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