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Camille Lima

Camille Lima

Jornalista formada pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), em 2025 foi eleita como uma das 50 jornalistas mais admiradas da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já passou pela redação do TradeMap. Hoje, é repórter de bancos e empresas no Seu Dinheiro. A cobertura atual é majoritariamente centrada no setor financeiro (bancos, instituições financeiras e gestoras), em companhias maiores listadas na B3 e no mercado de ações.

LENDA DO MERCADO

Dólar a R$ 4,40, ou dívida acima de 80% do PIB: o alerta de Stuhlberger para 2026

Dólar, juros e eleição entram no radar do gestor do lendário fundo Verde para proteger a carteira

Camille Lima
Camille Lima
27 de janeiro de 2026
14:42 - atualizado às 14:36
Luis Stuhlberger, CEO da Verde Asset Management.
Luis Stuhlberger, CEO da Verde Asset Management. - Imagem: Divulgação

Mesmo sem defender uma saída do Brasil, Luis Stuhlberger já está se protegendo como se o pior estivesse no horizonte. Pessimista com o cenário para 2026, o gestor do lendário fundo Verde afirma que os fundamentos da economia brasileira estão “insanos” — e que o modelo atual de crescimento é sustentado por uma fórmula de endividamento que não se sustenta no tempo.

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“Eu não mudaria minha alocação para sair correndo do Brasil, porque o país tem um potencial imenso que, com um governo melhor, pode fazer os preços dos ativos se multiplicarem. Não vale a pena ir embora”, disse o gestor, durante evento anual de investimentos do UBS BB.

Mas a frase do CEO da Verde Asset, que tem R$ 16 bilhões sob gestão, vem acompanhada de um alerta: também não vale se animar demais.

Na avaliação do gestor, apesar da resiliência recente — desemprego em baixa, inflação sob controle e economia em expansão —, os números fiscais contam uma história bem diferente.

Stuhlberger resume o cenário com uma visão estruturalmente negativa para o ambiente macroeconômico doméstico. “Eu tendo a ser mais pessimista porque esse modelo vai se esgotar. O mercado pode se animar com anúncios pontuais, mas o problema fiscal real vai surgir mais adiante”, projetou.

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Hoje, o Brasil arrecada cerca de 37,8% do PIB e gasta algo próximo a 38,5%. “Isso é um negócio insano para um país emergente e pobre. Não existe paralelo na economia mundial em que um PIB per capita de 12 mil dólares gaste isso”, afirmou.

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Para Stuhlberger, esse desequilíbrio indica que o modelo político adotado pelo governo Lula é sustentado por uma trajetória inviável de endividamento, que pode levar a dívida pública para além de 80% do PIB ao fim do mandato.

Mesmo assim, recentemente, o fundo multimercado da gestora zerou sua posição em criptoativos e começou o ano apostando mais em real e ações brasileiras.

O hedge como proteção financeira de Stuhlberger

Em meio às incertezas eleitorais, o gestor revelou parte das estratégias que vem usando para proteger a carteira. Segundo ele, montar hedges contra o cenário brasileiro não é apenas uma decisão financeira, mas também uma forma de lidar com a frustração política.

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Um hedge é uma forma de seguro do patrimônio, que consiste em apostar contra a atual exposição. Caso o cenário mude drasticamente, uma parte do patrimônio está protegida.

“Mesmo que eu perca 20% nos outros ativos, se eu ganho 1% com o hedge, eu fico feliz porque ganhei algo com a vitória do Lula”, disse. “Acredito que a eleição será decidida no 50/50 até o final. Por isso, é importante manter opções de proteção”, afirmou.

Para Stuhlberger, há opções de proteção baratas hoje no mercado. Uma das proteções preferidas do gestor no momento é o dólar para janeiro de 2028, especialmente como seguro em um cenário de restrição à saída de capital.

Juros longos distorcidos, câmbio fora do lugar e bolsa dependente de fluxo

Para o gestor, alguns dos fundamentos da economia estão descalibrados. “O câmbio está extremamente fora do lugar. O valor justo está muito distante da cotação atual, e o juro longo também está estressado”, avaliou.

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Para ele, o valor justo (fair price) do dólar estaria próximo de R$ 4,40. “Toda vez que alguém de direita ganha a eleição, o dólar vai para o fair price.”

No mercado de juros, Stuhlberger criticou a estratégia do Tesouro Nacional. “Quando o juro longo fica muito estressado, o Tesouro costuma reduzir emissões longas e concentrar no curto. Mas essa gestão não fez isso: continua emitindo longo sem levar em conta essa distorção”, afirmou.

Já na bolsa, ele vê um desempenho desigual. “O mercado performou bem em dois momentos: primeiro com utilities; depois com commodities e bancos. O estrangeiro parece acreditar que um eventual quarto governo Lula não será pior que o atual.”

Segundo ele, há hoje um fluxo global “gigantesco”: investidores estrangeiros mantêm cerca de US$ 36 trilhões nos Estados Unidos. Se uma fração disso migrar para mercados pequenos como o Brasil, o impacto é relevante.

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A visão do CEO da Verde Asset sobre a economia brasileira

Na avaliação de Stuhlberger, a expansão fiscal ajuda a explicar a surpreendente resiliência da economia. Os gastos públicos crescem, em média, 5% ao ano em termos reais, e o impulso fiscal e de crédito em 2024 deve alcançar R$ 180 bilhões, segundo suas contas.

Dos 215 milhões de habitantes do Brasil, cerca de 112 milhões recebem algum pagamento do governo mensalmente, destacou o gestor. “Isso mantém o desemprego baixo, mas a dúvida é o que acontece quando houver necessidade de ajuste fiscal”, disse.

Para ele, o país vive hoje um paradoxo. “As empresas crescem, os setores de consumo estão aquecidos, mas tudo é mantido por uma fórmula inviável de endividamento. O que acontece quando esse modelo parar e o governo precisar fazer um ajuste fiscal?”

O fantasma da dominância fiscal

Para Bruno Coutinho, CEO da Mar Asset, que também participou do painel no evento, o Brasil vive uma característica estrutural: o Estado é o protagonista da economia.

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Diferentemente de economias desenvolvidas, onde a política monetária dita o ritmo, no Brasil o motor é o fiscal — e o Banco Central acaba atuando como um “passageiro”, reagindo à política de gastos.

“O risco hoje é a dominância fiscal, quando o BC não consegue subir juros para conter a inflação porque isso inviabilizaria a dívida pública”, afirmou.

Segundo ele, o cenário global ainda ajuda a mascarar o problema — mas o fantasma tende a reaparecer à medida que as eleições se aproximarem.

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