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Exile on Wall Street
Enzo Pacheco
2022-04-27T12:30:12-03:00
EXILE ON WALL STREET

Problemas na terra do Tio Sam: inflação e empregos menos atrativos assustam nos EUA; discussão sobre cannabis fica em segundo plano

A combinação de combustíveis e alimentos mais caros com vagas de trabalho com salários mais baixos e sem benefícios perturba os norte-americanos

27 de abril de 2022
12:30
Nota de dólar e Cannabis
Imagem: Shutterstock / montagem: Andrei Morais

Caro leitor,

Na semana passada, tive a oportunidade de participar do Benzinga Cannabis Capital Conference, evento focado no setor de cannabis que aconteceu nos dias 20 e 21 de abril em Miami, nos Estados Unidos. 

Mais do que apenas falar sobre o que pude ver nos dois dias com as principais cabeças do segmento (mais sobre isso abaixo), o período foi importante para ter noção de como anda a maior economia do mundo — e como isso pode impactar as decisões de política monetária do Fed e suas implicações para os ativos de risco do mundo inteiro.

A inflação nos EUA

1) Inflação: algo comum para a realidade tupiniquim, o aumento dos preços nos EUA tem de fato incomodado muitos cidadãos.

Após ter ficado bem abaixo da meta estipulada pelo Federal Reserve (de 2%) por um bom tempo, as medidas adotadas para o combate da pandemia, aliadas às dificuldades observadas na cadeia de suprimentos global e outros fatores-surpresa (como o impacto nos preços das commodities devido à invasão da Ucrânia pela Rússia), têm mantido a inflação nos maiores níveis em mais de 40 anos.

De fato, conversando com pessoas que moram no país, foi possível verificar que muitas pontuavam esses aumentos como algo que não viam há muito tempo e que estava comprometendo o orçamento familiar. 

Inflação e o preço dos combustíveis

Assim como ocorre aqui, a principal reclamação dos motoristas de aplicativo eram os altos gastos com combustível, fazendo com que o lucro final das corridas seja cada vez menor. E, olhando os números mais a fundo, não parece que eles terão um alívio tão cedo…

Segundo dados do site GasBuddy (comparador de preços de combustíveis nos EUA), o preço médio do galão hoje nos EUA está na casa dos US$ 4,10 — comparado com US$ 4,34 na máxima do ano, o equivalente a uma queda de 5%. 

É importante notar também que o preço médio ao longo de 2021 não chegou aos US$ 3,50/galão, mesmo com o preço do barril caindo quase 20% das máximas. 

Custo com alimentação elevado

E esse aumento generalizado também tem afetado os custos com alimentação, tanto nos domicílios como fora de casa. 

Levantamento feito pela Square (empresa de meios de pagamento) mostra que os americanos estão tendo que pagar mais pelo almoço: no último ano, o aumento no preço dos produtos ficou nos 7%; já analisando os valores de março de 2022 frente ao mesmo mês de 2020, alguns itens apresentaram aumentos de 10%, 20% e até 30%. 

E posso contar por experiência própria que senti esse impacto no bolso. O clássico café da manhã americano (não me julgue, mas sou um grande apreciador de tal iguaria) estava 20% mais caro em relação à visita que fizemos dois anos atrás.

Isso pode ser corroborado pelos resultados divulgados recentemente por Coca-Cola e Pepsico. Ambas apresentaram um bom crescimento em suas receitas (+16% e +9% vs. 1T21, respectivamente), o que se deve mais à elevação de preços do que a um aumento substancial do volume vendido.

“Temos vagas”

2) Emprego: também não pude deixar de notar a grande quantidade de avisos de vagas de trabalho disponíveis, independentemente do setor ou do porte da companhia oferecendo emprego. 

Vestuário, alimentação, saúde, grandes corporações ou negócios locais. Para muitos, isso reforçaria a ideia de que quem quer se dar bem nos EUA não tem desculpa, dadas as inúmeras oportunidades de trabalho.

Mas muitos se questionam como seria possível haver tantas vagas de emprego uma vez que a taxa de desemprego americana se encontra perto do menor nível histórico, aos 3,6%. 

Desde 1948, apenas em dois períodos (entre 1951 e 1953 e nos dois anos finais da década de 1960) esse indicador ficou abaixo do patamar atual — e ambos precederam recessões na terra do Tio Sam…

Vagas de emprego menos atrativas nos EUA

Alguns economistas apontam que muitos desistiram de voltar à força de trabalho após a pandemia por não considerarem tais ofertas atrativas o suficiente para saírem de casa. 

De fato, com o ganho real dos trabalhadores no negativo (ou seja, perdendo para a inflação), as companhias só conseguiriam atrair novos talentos aumentando o pacote de compensação aos funcionários.

Além disso, o retorno à normalidade tem feito com que as empresas, cada vez mais, solicitem a seus funcionários que voltem a trabalhar nos escritórios. 

Home office é a nova realidade em meio à inflação?

Mas o aumento nos custos, tanto de deslocamento como para alimentação no dia a dia do trabalho, tem feito com que muitos profissionais reforcem com as companhias a possibilidade de continuarem atuando remotamente.

A ManpowerGroup, uma das maiores empresas de recrutamento do mundo, tem recebido cinco vezes mais comentários de trabalhadores relatando que o aumento nos custos tem afetado o dia a dia no trabalho, até mesmo fazendo com que muitos repensassem a sua continuidade no emprego.

Se antes era comum ouvir demandas de profissionais como “eu não gostaria de ter que me locomover diariamente para o trabalho”, atualmente a consultoria tem escutado que muitos não têm condições para realizar tal deslocamento. 

E, se as disrupções mantiverem os preços em níveis altos, a expectativa é que cada vez mais e mais trabalhadores comecem a reivindicar aumentos salariais. 

Ainda que as empresas aceitem essas solicitações, a chance de que esses incrementos sejam repassados para os consumidores via aumento de preços, com a possibilidade de uma espiral inflacionária, não é algo a ser desprezado. 

Setor de cannabis segue promissor

3) Cannabis: enfim, o grande motivo da nossa visita às terras americanas.

No evento, pudemos escutar tanto de empresas de capital aberto como de instituições privadas aquilo que batemos na tecla aqui dia sim, outro também: o setor de cannabis nos EUA segue altamente promissor, mas é algo que nenhum investidor pode esperar que mature da noite para o dia.

Com vendas que totalizaram mais de US$ 23 bilhões em 2021, a expectativa dos analistas é que até 2026 esse mercado ultrapasse a marca dos US$ 46 bilhões. No mundo, as projeções apontam que o setor deve movimentar US$ 61 bilhões no mesmo período, ante US$ 29 bilhões no ano passado.

Campeão da NBA investe em cannabis?

É interessante notar a participação de grandes personalidades no segmento. Logo de cara tivemos a oportunidade de conversar com Isiah Thomas — duas vezes campeão da NBA (liga de basquete americana) pelo Detroit Pistons e 12 vezes convocado para o Jogo das Estrelas da liga. 

Hoje ele é CEO da One World Products, que pretende produzir cannabis e cânhamo na Colômbia e exportar para outras empresas de bens de consumo ao redor do mundo. 

Setor de cannabis é vantajoso no longo prazo?

Sem falar em todos os empreendedores com quem conversamos durante esses dois dias (um deles já investiu cerca de US$ 85 milhões para estruturar operações em três estados americanos), além das companhias de capital aberto presentes (uma que está atualmente na carteira do Green Rider anunciou um novo negócio no valor de US$ 80 milhões no evento). 

Contudo, ainda que as empresas e os executivos se mantenham positivos quanto ao longo prazo, com capacidade de colocar seus planos estratégicos em prática, fato é que o grande empecilho para o setor tem sido a questão regulatória.

O caminho até a regulação

Nem mesmo a presença de dois congressistas do Partido Republicano (tido como mais conservador nesse assunto), que já apresentaram projetos de lei visando facilitar a vida das companhias do setor, foi suficiente para virar o humor dos presentes. Ainda temos um longo caminho pela frente.  

Por outro lado, o início das vendas no estado de Nova Jersey serviu de alento para os investidores, mostrando que diversos outros estados ainda podem entrar na dança e aumentar o tamanho desse mercado. 

Um abraço,
Enzo Pacheco

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