2019-05-02T12:02:06-03:00
Estadão Conteúdo
presidente da petrobras

‘Não dá para bancar ser o machão’

Ficar refém novamente nas mãos dos caminhoneiros foi uma preocupação real do presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco; para ele, a decisão de suspender o reajuste do diesel não compromete a credibilidade da companhia

26 de abril de 2019
12:23 - atualizado às 12:02
Roberto Castello Branco, presidente da Petrobas
Presidente da Petrobrás, Roberto Castello BrancoImagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

Ficar refém novamente nas mãos dos caminhoneiros foi uma preocupação real do presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco. Para ele, a decisão de suspender o reajuste do diesel não compromete a credibilidade da companhia. "Acho que a preocupação do presidente (com a greve) foi legítima." A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como foi o pedido do presidente Bolsonaro à Petrobrás para segurar o reajuste do diesel?

Estava no aeroporto de Galeão quando o presidente me ligou. Ele foi informado sobre o aumento do diesel e me alertou sobre uma possível greve dos caminhoneiros. Disse a ele que iria estudar o assunto e discutir com a diretoria (da Petrobrás) para cancelar o aumento. Em seguida, liguei para a diretora de refino. Chegamos à conclusão que, diante do risco de uma greve, era melhor sustar o aumento e depois avaliar o que poderia ser feito.

A Petrobrás então acatou o pedido do presidente...
Nos reunimos com vários ministros na Casa Civil na segunda-feira (dia 15). Foram discutidas várias ideias. Inclusive, uma sugestão minha, sobre a indexação do contrato de frete ao preço do diesel. Na terça-feira, pela manhã, várias medidas foram anunciadas. No mesmo dia, à tarde, tive reunião com o presidente Bolsonaro e os ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Paulo Guedes (Economia) e almirante Bento Albuquerque (Minas e Energia) para explicar ao presidente como é a situação do diesel no Brasil.

Entendeu o pedido como uma interferência do governo?
Acho que a preocupação dele foi legítima. Fiquei preocupado com o risco de greve permanecer. A Petrobrás não pode subsidiar o preço do diesel, seria um problema para o Brasil e não resolveria o problema dos caminhoneiros. Sugeri que o reajuste seja feito só na alta. Temos outras ideias, que implicam gastos do governo (compra de frota antiga, bolsa caminhoneiro e requalificação).

A decisão de suspender o aumento arranhou a imagem da empresa para o investidor?
Acho que não. Se a Petrobrás tivesse mudado sua política, congelado os preços… Não perdemos um tostão porque efetuamos operação de hedge.

Mas o mercado se assustou...
Sim e a queda das ações da Petrobrás repercutiu isso. Temos um passado muito ruim. A Dilma (Rousseff, ex-presidente) fez isso, (o mercado entendeu que) o Bolsonaro iria fazer… Mas isso não aconteceu. Não estou aqui para defender… Não sou político, mas acho que foi injusto (com o presidente). A atuação dele foi no sentido de que havia um risco de greve. A comunicação, enfatizo, é muito importante. Toda a discussão foi por R$ 0,10.

Temos de lembrar que as manifestações de 2013 começaram por causa de R$ 0,20...
Sem dúvida. Mas não era por causa de R$ 0,20. Era algo mais fundamental. Os nossos serviços públicos continuam sendo muito ruins…

Como é sua interlocução com Bolsonaro e Paulo Guedes?
Com o presidente, tive só esta reunião em que esclarecemos os pontos para ele. Com Guedes e o ministro almirante Bento, tenho um diálogo muito bom, construtivo. Eles nunca fizeram menção de intervir na companhia. Tive liberdade para escolher todos diretores e gerentes que quis, sem intervenção.

O presidente tem uma visão menos liberal que a do sr. e da equipe econômica.
O presidente é um político. Sou economista, assim como Guedes. Temos ideias convergentes. Concordamos em muita coisa, não 100% necessariamente.

Os caminhoneiros ganharam um poder grande de barganha no ano passado. Não teve medo de a Petrobrás ficar refém deles?
Tenho preocupação. Não quero que os eventos do ano passado se repitam. Foram ruins para a Petrobrás. O presidente da Petrobrás saiu e a companhia ficou paralisada. Por isso, tenho sido ativo em fazer sugestões ao governo. Eu poderia ter dito que a Petrobrás é independente, o aumento está dado e vamos embora. Mas essa atitude não é construtiva. Não é porque a gente retarda o aumento por poucos dias que vai diminuir a credibilidade da companhia. Minha obrigação é defender a estatal. Não dá para bancar ser o machão. A gente tem de pensar e analisar os riscos.

No ano passado custou a renúncia do Pedro Parente... Chegou a pensar em sair?
Não. Pensei em contornar a crise, sem violar qualquer crença minha. Estou aqui para cumprir uma missão. Se eu sentir que vou fracassar, não tenho mais nada a fazer, não vou comprometer a minha credibilidade. Mas demissão é um ato que se executa, e não se ameaça. Não é inteligente fazer isso.

A Petrobrás é o símbolo da Lava Jato. Ainda há esqueleto no armário?
Creio que não. Se achasse, iria atrás. A Petrobrás sofreu muita depuração, a governança se fortaleceu. Mas não dá para garantir que não há mais nada.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Comentários
Leia também
CUIDADO COM OS ATRAVESSADORES

Onde está o seu iate?

Está na hora de tirar os intermediários do processo de investimento para deixar o dinheiro com os investidores

CHAPA CONFIRMADA

Eleições 2022: Veja quantos milhões Lula e Alckmin declararam ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

7 de agosto de 2022 - 12:49

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin confirmaram a chapa ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

NÃO ENTRE NESSA

AMTD Digital (HKD): A ação desconhecida que subiu mais de 32.000% em menos de um mês e agora entra em queda meteórica

7 de agosto de 2022 - 11:18

Recém-chegada a Nova York, as ações da AMTD Digital levaram a companhia a valer mais do que grandes bancos como o Goldman Sachs e BofA

ROTA DO BILHÃO

O Lobo de Cashmere: Como Bernard Arnault, dono da LVMH, fez uma fortuna de US$ 168,6 bilhões a partir de bolsas e joias

7 de agosto de 2022 - 8:15

Formado em engenharia e apelidado como “Exterminador do Futuro”, o francês transformou uma empresa de tecidos falida na maior companhia da Europa

IVAN SANT'ANNA

Sob a névoa da guerra: as chances de Rússia e Ucrânia após seis meses de conflito

7 de agosto de 2022 - 7:29

As coisas não se passaram da maneira que Putin queria, e já é muito remota a chance de a Rússia anexar integralmente o seu vizinho do oeste

Existe esperança

Elon Musk flerta com a possibilidade de seguir em frente com a compra do Twitter — mas antes quer certeza sobre o número de usuários da rede

6 de agosto de 2022 - 15:19

O bilionário Elon Musk, dono da Tesla, voltou a usar o próprio Twitter para pressionar os executivos da rede social

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies