Menu
2019-06-30T12:44:21-03:00
Seu Dinheiro
Seu Dinheiro
Relacionamento com o Congresso

“Bolsonaro optou por se tornar rainha da Inglaterra”, diz economista do Ibre/FGV

Samuel Pessôa afirma que o Congresso deve conseguir aprovar a reforma da Previdência, apesar da falta de articulação do Executivo

30 de junho de 2019
12:44
Presidente da República, Jair Bolsonaro
Presidente da República, Jair Bolsonaro - Imagem: Marcos Corrêa/PR

O Congresso deve conseguir aprovar a reforma da Previdência, apesar da falta de articulação do Executivo, avalia o chefe de crescimento econômico do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas, Samuel Pessôa.

“Difícil é imaginar o dia seguinte. Mudar a Previdência é uma condição necessária, mas ela não é suficiente (para reaquecer a economia)”, diz.

Para Pessôa, há condição para que o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, corte os juros básicos.

Ainda assim, antes de aprovar a Previdência, o governo não tem espaço para muitas medidas de curto prazo. A seguir, trechos da entrevista:

Por que a economia não reage?

Quando o presidente Jair Bolsonaro ganhou a eleição, houve um excesso de otimismo com o governo, as pessoas imaginavam que o presidente iria operar o sistema político da forma convencional, atendendo ao conjunto de regras de funcionamento do presidencialismo de coalização, nos mecanismos de relacionamento do Executivo e Legislativo desenvolvidos ao longo do mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e que serviram de padrão para os outros governos em seguida.

Fazendo articulações?

É a forma como o presidente negocia, de maneira republicana, a construção da base de sustentação e compartilha poder com partidos que são próximos a ele, mantendo uma participação proporcional ao tamanho e ao peso de cada partido. Isso o Bolsonaro não quis implementar, o que gerou uma enorme frustração de expectativa em todo mundo e desestimulou investimentos.

As dificuldades políticas têm atrapalhado as reformas e a recuperação da economia?

O presidente construiu uma candidatura, foi eleito e está prestes a aprovar uma reforma da Previdência sem se comprometer com ela. Bolsonaro é o maior interessado na aprovação da reforma, mas ela deve passar sem a liderança dele. Em geral, o fracasso do desempenho da economia é atribuição do Executivo, mas Bolsonaro conseguiu uma coisa original: jogou no colo do Congresso a responsabilidade pelo desempenho fraco que a economia brasileira tem tido.

Essa postura tem dado certo?

Na última semana, o presidente se queixou de que o Legislativo quer esvaziar o seu poder, transformando Bolsonaro em uma espécie de ‘rainha da Inglaterra’ (ao comentar um projeto da Câmara que transfere aos deputados o poder de fazer indicações para agências reguladoras). Isso é uma coisa que muito me espanta. Ele escolheu ser ‘rainha da Inglaterra’. Ele fez toda uma campanha demonizando a política tradicional, mas não existe outra política - ela pode ser bem-feita ou de pior qualidade, mas não há outra. Quando o presidente não toma a liderança da negociação entre Legislativo e Executivo e diz que toda política é roubalheira, ele se exime de fazer política. O Brasil já havia aprendido a operar nos marcos do presidencialismo de coalização padrão e eu sou uma certa viúva dele. Hoje, temos um governo de extrema direita, que não se preocupa tanto com a agenda econômica do País.

Aprovando as mudanças na Previdência, o que vem a seguir?

Mudar a Previdência é uma condição necessária, mas não é suficiente. Ela consegue colocar a economia rodando a 2%, ao invés de 1%, como agora. Há toda uma agenda de outras reformas que precisam ser feitas, mas tenho dificuldades de desenhar o dia seguinte à aprovação da reforma da Previdência, não sei qual vai ser a reação do Congresso. Não sei como ficaria o contorno da política. Pode ser que o presidente continue no palanque, fazendo guerra cultural, matando os comunistas que ele diz encontrar por aí. E o Congresso, tocando a agenda das demais reformas, em paralelo ao governo.

O governo pode tomar medidas para tentar reaquecer a economia no curto prazo?

Não tem muita coisa que pode ser feita além das reformas, mas o Banco Central sinalizou que haverá um clico de queda dos juros depois da aprovação da reforma da Previdência. Se olharmos o gasto público hoje, tem um espaço de R$ 35 bilhões que poderiam ser gastos na manutenção de estradas. Não valeria a pena construir coisas novas, mas colocar algum dinheiro na manutenção de estradas e pontes. Mas é preciso passar a etapa da reforma da Previdência. Qualquer medida que for tomada antes que o País tire a reforma da frente pode aumentar o risco-país, gerar um aumento de percepção de risco lá fora, o que seria uma coisa ruim para o crescimento econômico.

A redução dos juros poderia ser mais rápida?

Independente da percepção das pessoas, a gente está discutindo pouco abaixo dos juros atuais. Eu entendo que o Banco Central tenha dificuldade de iniciar essa discussão sem tirar o tema da Previdência da frente. Mas o ciclo de queda de juros sempre ajuda um pouco, pode ter algum espaço para incentivar a infraestrutura.

O boletim Focus, do Banco Central, tem trazido previsões cada vez mais baixas para o crescimento do País este ano. Alguns economistas estimam crescimento inferior a 1%. O senhor concorda com essas expectativas?

Eu sou um pouco mais otimista do que parte dos economistas tem sido até agora. Aqui no Ibre, nós projetamos 1,2% de crescimento do País para este ano.

O argumento que a gente sustenta é que o consumo das famílias tem tido uma recuperação. É medíocre e a produtividade ainda está muito baixa, mas pode ajudar.

*Com o jornal O Estado de S. Paulo.

Comentários
Leia também
ENCRUZILHADA FINANCEIRA

Confissões de um investidor angustiado

Não vou mais me contentar com os ganhos ridículos que estou conseguindo hoje nas minhas aplicações. Bem que eu queria ter alguém extremamente qualificado – e sem conflito de interesses – para me ajudar a investir. Só que eu não tenho o patrimônio do Jorge Paulo Lemann. E agora?

MERCADOS HOJE

Ibovespa ignora tensão em Brasília e busca romper marca histórica; dólar recua

Exterior positivo traz fôlego aos negócios locais, mas problemas em Brasília persistem

Exile on Wall Street

Bolsa não precisa de motivos para subir e os ganhos acontecerão – mesmo no pior cenário

Do fim de fevereiro até este meio de abril, o Ibovespa retomou os 120 mil pontos rapidamente, e sem qualquer utopia. Isso nos traz uma importante lição enquanto investidores agnósticos: a Bolsa não precisa de motivos para subir. Repita o mantra: não precisa de motivos para subir, não precisa de motivos… assim como você não […]

Taxa zero pra todo o lado

Easynvest zera taxa de corretagem para maioria das operações com ações, BDRs e opções

A corretora digital já não cobrava por investimentos em renda fixa e agora quer expandir essa ideia para ações, BDRs e opções do aplicativo

O melhor do Seu Dinheiro

A magia dos dados da Boa Vista, Arezzo, Hering e outros destaques do dia

No começo do ano, vazaram na internet dados de mais de 220 milhões de brasileiros, incluindo CPF, nome, endereço e renda. O número é maior que o da população brasileira porque o arquivo incluía pessoas que já faleceram. Mas não são apenas criminosos que espalham referências sobre quem somos por aí. Todos os dias nós […]

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies