Menu
Dados da Bolsa por TradingView
2019-08-26T10:50:57-03:00
Estadão Conteúdo
onde o calo aperta

‘Crise ambiental é uma ameaça gigante’, diz economista

Para especialista, maior parte dos incêndios são de atividades ilegais, grilagem, invasão em terra pública ou do índio – e isso é “um horror” para o agronegócio

26 de agosto de 2019
10:48 - atualizado às 10:50
Meio Ambiente
Presidente da República, Jair Bolsonaro acompanhado do Ministro de Estado do Meio Ambiente, Ricardo Salles. - Imagem: Marcos Corrêa/PR

Ao menos por enquanto, os brasileiros terão de se contentar com uma economia avançando a uma taxa anual inferior a 3%. Para um crescimento mais vigoroso, será preciso consolidar a situação fiscal e aguardar as concessões de infraestrutura - que não vão decolar em menos de um ano. Até lá, porém, medidas de intervenção estatal que aliviem a situação dos mais pobres são bem-vindas, segundo José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados. "É difícil olhar essa situação (de crise) e dizer: 'Vou esperar as reformas fazerem efeito'", diz o economista, que foi secretário de política econômica entre 1995 e 1998. Para ele, a crise ambiental é um risco de fato ao já fraco crescimento econômico. "A ameaça é gigante." A seguir, trechos da entrevista.

A taxa básica de juros (Selic) caiu, a reforma trabalhista passou, a da Previdência está encaminhada, e a economia continua estagnada. O que acontece?

Temos de olhar dois vetores. Um é o grau de destruição da crise. O ponto de partida é muito ruim. É como estar atolado na lama. Não é fácil começar a andar. O segundo é que, apesar de muitas peças pró-aquecimento estarem sendo colocadas, faltam duas fundamentais: a consolidação da percepção de que a crise fiscal está ficando para trás - a aprovação da Previdência na Câmara é um passo fundamental, mas não é o único - e o aumento de investimento. O investimento está em 15% do PIB. Tem de ir pelo menos para 22%. A resposta para o investimento voltar tem a ver com concessões de infraestrutura. Por outro lado, aquela expectativa favorável depois da eleição se reverteu fortemente. Isso tem a ver com o começo atabalhoado do governo. À medida que as expectativas se frustraram, emerge a situação atual. São quase 13 milhões de desempregados, 5 milhões de desalentados e 25 milhões de pessoas que não trabalham em tempo integral, mas gostariam. Aí fica fácil entender porque a venda de bens de consumo não decola.

Tínhamos um pouco desse cenário em 2018 e, mesmo assim, a previsão era de um PIB maior.

Houve frustração e erro (dos economistas), diga-se de passagem pelo terceiro ano seguido. Entre a eleição e a virada do ano, cansei de escutar gente entusiasmada dizendo ‘vou gastar mais’. Não era construir uma fábrica nova, mas, nessa situação ruim, se você relança um produto, já está gastando. Com a velocidade que foi a expectativa, ela também caiu.

Por quê?

Não consigo ver outra explicação que não seja pelo começo muito atabalhoado do governo, pela falta de experiência.

Isso passou?

A parte mais atabalhoada, sim, mas aí entra outra questão. Li mais de uma vez, não tenho informação de fonte primária, que o governo e o Ministério da Economia resolveram só colocar em cima da mesa a Previdência. Para não atrapalhar a reforma, não se fez mais nada. Ficou um vazio. Você fica esperando acontecer uma coisa, que muita gente equivocadamente achava que até maio se resolveria. Essa frustração também postergou gastos. Estamos em agosto e agora estão anunciando privatizações. Mas, até agora, não saímos da Previdência. Estava claro, já em maio, que o ano seria perdido para o crescimento.

Segundo o Relatório Focus, o PIB vai crescer 0,8% em 2019 e 2,2% em 2020. Reformas não são suficientes para impulsionar um crescimento mais forte?

Por ora, não, mas isso não será para sempre. Para retomar um crescimento melhor, precisamos consolidar a parte fiscal um pouco mais, para que as pessoas tenham convicção de que de fato vai melhorar, e que não é apenas uma promessa. A segunda questão são as concessões, obras de infraestrutura. O ministro da Infraestrutura (Tarcísio de Freitas) disse que projetos maiores só a partir do fim do primeiro semestre de 2020. Portanto, o ano que vem ainda vai ser moderado. Pode melhorar depois porque, em todo o mundo, o que emprega mesmo é a construção. Mas dá para dizer que a volta vai ser muito lenta. Precisaremos de mais tempo para ter um crescimento de 3% sustentável.

Nada pode ser feito até lá para aliviar a situação dos 13 milhões de desempregados?

Tem de fazer alguma coisa. Mas não qualquer coisa, porque tem um aperto fiscal. Por exemplo, existem municípios de 100 mil habitantes que poderiam ter projetos de esgoto concedidos para a iniciativa privada. Além disso, sempre é possível fazer programas de intervenção direta para (reduzir) a pobreza absoluta. Eles são relativamente baratos. É difícil olhar essa situação e dizer: ‘Vou esperar as reformas fazerem efeito’. Suspeito que tenha um conflito existencial na equipe econômica, que, na sua maioria, é excessivamente liberal. Tenho impressão que é menos por falta de recurso e mais por essa coisa conflituosa (que não se faz nada).

A crise ambiental pode ter impacto relevante na economia?

O agronegócio, na sua essência, tem uma boa pegada ambiental. Ainda tem dificuldades, mas tem um caminho onde já existem práticas sustentáveis. O nó da questão é a Floresta Amazônica. A maior parte dos incêndios são de atividades ilegais, grilagem, invasão em terra pública ou do índio. Isso é um horror para o agronegócio. No mundo inteiro, até na China, o consumidor quer saber o que está comendo, de onde o alimento veio e como foi produzido. Duas semanas atrás, o presidente da Cofco (estatal chinesa de processamento de alimentos) falou que vai comprar mais do Brasil, mas que só fará isso se tiver sustentabilidade na produção. Falou doze vezes a palavra sustentabilidade. A ameaça é gigante e a visão de que é um problema com ONGs está totalmente desconectada. Estamos acumulando condições de voltar a crescer. Ainda assim, nada está garantido. Pode piorar por causa do cenário internacional, da crise argentina e de problemas de boicote ao agronegócio brasileiro. Esse risco existe. Não é invenção.

Comentários
Leia também
A REVOLUÇÃO 3.0 DOS INVESTIMENTOS

App da Pi

Aplique de forma simples, transparente e segura

ENTROU NO JOGO

Previsão de US$ 1 trilhão da Greyscale ficou pequena: Goldman Sachs acredita que metaverso é oportunidade de US$ 8 trilhões

De acordo com cálculos do analista da instituição financeira, as previsões mais otimistas dão conta de um valor potencial de até US$ 12 trilhões

De volta ao lar

Embraer (EMBR3) reintegra o setor de aviação comercial após o fiasco com a Boeing. E agora, como ficam as ações?

Para a Embraer (EMBR3), a parceria com a Boeing em aviação comercial é passado; mas será que o mercado precifica corretamente suas ações?

Disposta a competir com as gigantes, Infracommerce (IFCM3) pode ver salto de mais de 70% nas suas ações, diz BofA; papéis sobem mais de 4%

Banco iniciou a cobertura dos papéis da fornecedora de infraestrutura de e-commerce para outras empresas com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 25 por ação

AMPLIANDO A BASE

Em busca do pequeno investidor, BR Partners (BRBI11) fecha preço de oferta de ações; papéis sobem

Banco havia realizado IPO em junho do ano passado em operação que permitia a compra dos papéis nos primeiros 18 meses apenas por investidores que tivessem mais de R$ 1 milhão em aplicações, os chamados investidores qualificados

BITCOIN (BTC) HOJE

Bitcoin (BTC) avança para os US$ 38 mil antes da decisão de política monetária do Fed, mas semana ainda é difícil para mercado de criptomoedas

Investidores aguardam maiores informações sobre a retirada de estímulos e alta nos juros por parte do Banco Central americano

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies